Em 1930 ocorreu um fato novo. Coroando uma exaustiva busca através do céu para descobrir um novo planeta, Tombaugh descobriu Plutão, em uma órbita além da de Netuno. E Plutão foi aclamado como tal. Mas, era Plutão realmente um planeta? O primeiro critério era óbvio.

O movimento de Plutão indicava tratar-se de um objeto em órbita ao redor do Sol. O segundo (o tamanho) não chegava a ser contrariado. Plutão era um objeto brilhante e mesmo publicações respeitadas ainda indicavam, na década de 60, que seria um planeta do mesmo tamanho que a Terra. (mas de menor massa e densidade).

As coisas começaram a mudar em 1978, com a descoberta de Caronte, satélite de Plutão, por Christy. O estudo do movimento de Caronte ao redor de Plutão permitiu determinar que a massa de Plutão é apenas dois milésimos da massa da Terra. Mais tarde, o estudo das passagens de Caronte na frente de Plutão permitiram determinar o diâmetro de Plutão: 2274 km. Plutão é maior do que os asteróides, mas bem menor do que a Lua, cujo diâmetro é de 3476 km.

Harrington, o astrônomo que fez a primeira determinação moderna da massa de Plutão, em um workshop sobre statélites naturais apresentou sua fala sob o título: "Plutão, asteróide 1930EX ou cometa P/Tombaugh ". O título exato que ele usou se perdeu, mas a idéia era dizer que, dada sua pequena massa e os gelos que recobrem sua superfície, Plutão poderia muito bem ser classificado como sendo um grande asteróide ou um cometa. (Plutão certamente viria a apresentar uma atividade de tipo cometário, se se aproximasse mais do Sol de modo a permitir uma taxa elevada de sublimação dos gelos que o compõem.)

Como continuar chamando Plutão de planeta?

Essa discussão teve início em seguida, com altos e baixos de intensidade (ver Boletim da Sociedade Astronômica Brasileira, vol. 18, pp. 39-42, 1999). Afinal, chamar Plutão de planeta não causava danos a ninguém e, continuar a chamá-lo de planeta evitava semear confusão entre os estudantes e professores de todo o mundo de maneira desnecessária. Essa foi a opinião que prevaleceu da última vez que se tentou mudar o seu status

As novas descobertas e a controvérsia que elas geraram

Os novos meios de observação astronômica trouxeram novas descobertas e um dos objetos recem descobertos em órbita além da órbita de Netuno, Eris (que teve a denominação provisória 2003 UB313 e foi, não oficialmente, chamado de Xena), tem um diâmetro maior que o de Plutão (2400 km).Outros como 2003 EL 61, 2005 FY 9 e Sedna são menores do que Plutão, mas tem diâmetros bem acima de 1000 km. Com isto fica claro que a história de Ceres se repete. O que aparentou ser, inicialmente, um planeta com os demais, se revela como sendo apenas o membro mais importante de uma familia de objetos menores, resíduos da formação planetária que não chegaram a se conglomerar para constituir um corpo maior.

Isso fez esquentar a controvérsia e alguns pontos de vista foram discutidos de maneira  acalorada. A pressão para evitar que Plutão deixasse de ser considerado como um planeta foi mais política do que científica. Os comités que deveriam propor uma decisão à União Astronômica Internacional deixaram-se convencer por argumentos heurísticos favoráveis à manutenção do status de Plutão como planeta.

Mas se Plutão é planeta, Eris também o é. Como o serão todos os grandes objetos que se espera descobrir além da órbita de Netuno e dos quais os acima mencionados são apenas a ponta do iceberg. Mas como encontrar um critério que diga que Plutão é um planeta mas exclua dessa categoria os demais. Foi necessário encontrar uma definição “recortada” para incluir um e excluir outros, e isso foi feito ignorando a maneira como se formaram os corpos do Sistema Solar.

A proposta do comitê oficial foi a seguinte: Um planeta é um corpo celeste que satisfaz ao requisitos (a) e (b) da definição agora adotada. Essa definição tinha diversos outros pormenores, como a classificação de Caronte como planeta e não como satélite, que não serão aqui discutidos.

Nessa proposta Ceres recuperaria o seu status de planeta (perdido no século 19), Caronte passaria a ser um planeta também (o sistema Pluão-Caronte apareceria como um planeta duplo) e Eris seria o décimo-segundo planeta. Além disso passavam a ser considerados como candidatos a planetas os objetos trans- netunianos 2003 EL61, 2005 FY9, Sedna, Orcus, Quaoar, Varuna, 2002 TX 300, Ixion, 2002 AW 197 e os asteróides Vesta, Pallas e Hygiea (seriam considerados planetas a partir do momento em que se confirmasse que eles satisfaziam à condição (b) da definição agora adotada).

A pletora de novos planetas da proposta “oficial” desagradou a muitos e uma proposta alternativa encabeçada por especialistas na Dinâmica do Sistema Solar ganhou o apoio dos astrônomos presentes à Assembléia Geral da União Astronômica Internacional, em Praga. Ela incluiu o ítem (c) da definição aprovada. A UAI aprovou também que os corpos que satisfaçam aos requisitos (a) e (b), mas não ao requisito (c) possam ser chamados planetas anões.

A adoção de uma definição não significa que a discussão acabou! A União Astronômica Internacional não tem poder legal para impor uma definição e os descontentes com a nova definição terão todo o direito de buscar novos argumentos para uma definição que os agrade.. Mas é de todo conveniente acatar a orientação representada pela resolução aprovada pela UAI   para que um padrão comum seja adotado pelos livros didáticos e transmitido aos mais jovens e que o período de transição se encerre. A Lua já foi chamada planeta e não o é mais.

Os asteróides já foram chamados planetas e não mais o são. Agora é a vez de Plutão, que foi chamado planeta por quase 80 anos, mas que agora passa a ser o planeta anão de número 134340 (até segunda ordem, os planetas anões continuam sendo catalogados junto com os asteróides e por isso o número tão grande). Os nomes que usamos na ciência tem que se adaptar às novas realidades que descobrimos. Uma das maravilhas da ciência é que ela não se pretende definitiva. Na definição de Popper, o que qualifica a ciência é o fato de que todas as suas leis estão sujeitas a ser contrariadas por resultados novos. Sem exceção!

Os planetas extra-solares

A resolução aprovada refere-se apenas os planetas do nosso Sistema Solar. Para se aplicar aos planetas que tem sido descobertos ao redor de outras estrelas, os chamados exoplanetas, um ítem adicional seria necessário: que náo exista um processo nuclear de geração de energia no seu interior. Com efeito, se no seu processo de crescimento um planeta atinge uma massa igual a 13 vezes a massa de Júpiter, a densidade, temperatura e pressão no seu centro ficam suficientemente grandes para que ocorra a fusão nuclear do deutério lá existente.

Embora essa reação se mantenha apenas enquanto houver deutério (que existe em muito pequena quantidade) para queimar no interior do planeta e não seja suficiente para criar as condições necessárias para a ocorrência de uma reação em cadeia envolvendo outros elementos, o corpo não é mais considerado como um planeta. De acordo com a nomenclatura aprovada em 2003 pelo grupo de trabalho da UAI sobre planetas extra-solares, a partir desse limite o corpo é uma anã marrom.

Mas uma descoberta recente ameaça equentar essa discussão. A estrela anã vermelha CHRX 73, observada pelo telescópio Hubble, revelou a existência de um "planeta" de massa igual a 12 vezes a massa de Júpiter,  a 200 UA da estrela. (1 UA é a distância da Terra ao Sol). Nessa distância, é mais provével que o objeto não tenha se formado por acreção em um disco como os planetas e exoplanetas conhecidos, mas resulte do colapso gravitacional de uma nuvem de gas em dois objetos: a estrela e o "planeta". E nesse caso não deveria ser chamado de planeta.