Dalton Trevisan reúne, neste livro, textos já publicados anteriormente, com alterações que lhe dão uma fisionomia renovada. São contos, crônicas e poemas. O poema "A balada do vampiro" é uma extração do conto "O vampiro de Curitiba" reescrito em versos. Dalton viaja pela Curitiba dos seus desejos e recordações, amaldiçoando a face maquiada da cidade e perscrutando os mistérios desta Curitiba de tantas faces. Os aspectos práticos, nojentos da vida conjugal se misturam com momentos de angústia e desespero.

O Chico que se fina na pensão Nápoles, o Dario que morre sem assistência numa calçada, os bêbados que comem ingá e esperam a morte, o Serginho que perde o posto de cafetão são personagens de uma Curitiba feia que, paradoxalmente, deixou saudades.

Rosa e Augusta, gordinhas gulosas; Maria que traia João; Nelsinho cheio de gula nos olhos; tantos vidrilhos que refletem a mesma realidade mudando de posição no caleidoscópio urbano. Observe:

Em busca de Curitiba perdida - O narrador faz uma "viagem" pela antiga Curitiba e vai relembrando cenas e cenários.

Pensão Nápoles - Chico, um morador de pensões, à margem do Rio Belém. Uma vidinha medíocre, sem melhoria salarial, leva-o a mudar constantemente de pensão, de noiva, de emprego.

Lamentações de Curitiba - Visão do Juízo Final de Curitiba. Em tom profético e retórico, o narrador lamenta o desaparecimento de Curitiba.

Uma vela para Dario - O desinteresse e a frieza do público para com o ser humano.

Balada do Vampiro - Nelsinho, 20 anos, na Rua das Flores, observa o vaivém das lindas e desejosas mocinhas de Curitiba.

O cemitério dos Elefantes - Um grupo de bêbados vive às margens do Rio Belém, comendo restos e bendo cachaça.

Dá uivos, ó porta Grita, ó Rio Belém - Cenas curitibanas: o amanhecer friorento, as criadinhas buscando pão e leite, carros nas ruas, velhinhas que vão à igreja, criançada indo pra escola.

Duas rainhas - Rosa e Augusta, duas gorduchinhas. Conversa predileta: receita de bolo.

O Senhor meu marido - João, garçom em restaurante noturno, era casado com Maria. Moravam no Juvevê. O defeito dele era ser bom demais.

Canção do exílio - Não permita Deus que eu morra / sem eu daqui me vá / sem que eu diga adeus ao pinheiro / onde já não canta o sabiá / morrer ó supremo desfrute / em Curitiba é que não dá.

Quem tem medo de vampiro - O autor-narrador travestindo-se de crítico de si mesmo, reproduz com ironia as críticas, reais e possíveis a respeito do seu estilo, sua obra e sua pessoa.

Clínica de repouso - Maria coloca a mãe, dona Candinha, no Asilo Nossa Senhora da Luz.

Cartinha a um velho poeta - Sátira impiedosa contra "certo poeta" paranaense.

Noites de Curitiba - Serginho, galã da noite, garanhão, se apaixona por Marina, bailarina que tinha um coronel.

Lamentações da Rua Ubaldino - Reclamações contra a igreja que passa a utilizar sons ensurdecedores em seus cultos.

A faca no coração - João abandonado por Maria, dialoga com um amigo que o aconselha a esquecer Maria arranjando outra mulher.

Cartinha a um velho prosador - Neste texto o autor desanca em linguagem ferina a pobreza de espírito e de estilo de um "certo escritor" paranaense.

Uma negrinha acenando - Diálogo de um caminhoneiro e uma prostituta a quem deu carona.

Receita curitibana - Não existe mulher "muito" feia. O que vale é o abraço, o beijo, o delírio, o... Um basta à discriminação.

Com o facão, dói - João não trabalha, vive bêbado e, dia sim, dia não, surra a mulher, Maria e as filhas Rosinha (13) e Odete (15). As outras filhas menores também apanham.

Que fim levou o vampiro de Curitiba - Lembranças de antigas e famosas prostitutas curitibanas: Ávila, Dinorá, Alice, Uda, Otília...

Cinco Haicais - Cinco piadinhas-relâmpago.

Curitiba revisitada - Poema livre cheio de saudades da antiga Curitiba, cheio de desgosto e críticas amargas à desumana Curitiba atual.

Curitiba foi, não é mais.