Tendência constante ao poema de forma condensada (epigrama); poesia de “essências e medulas”.

Aprendizado inicial com Bandeira, Drummond, Murilo e Oswald (traços surrealistas).

Busca da poesia que se revela nas coisas simples.

Observação precisa, linguagem enxuta; recusa ao supérfluo e a todo sentimentalismo (contato com o concretismo). Abertura para a história e para o tempo presente: incorporação do “sentimento do mundo” de Drummond (o vasto mundo perceptível através do pequeno).

Relação com as pequenas coisas concretas do mundo ao redor; a casa, a cidade natal, a infância, o jabuti do jardim, a vida familiar, a tinta de escrever, o espelho, os óculos, a bengala, o fósforo, o alfinete.

Presença da interioridade, da consciência subjetiva e da emoção, mesmo na ironia e no negativismo.

Visão minimalista

Influência da formação provinciana (Curitiba) que lembra o estilo resumido de Dalton Trevisan e o detalhismo minucioso de Guimarães Rosa que estabelece a oposição rural X urbano, particular X universal (como em Drummond).

Sátira à repressão do golpe militar de 64, ironia ao ilusório milagre econômico.

À MODA DA CASA

feijoada

marmelada

goleada

quartelada

SEU METALÁXICO

Economiopia

Desenvolvimentir

Utopiada

Consumidoidos

Patriotários

Suicidadãos

Visão irônica de si mesmo:

O POETA, AO ESPELHO, BARBEANDO-SE

o rito

do dia

o ríctus

do dia

o risco

do dia

EU?

UE?

Consciência da passagem do “pequeno mundo” provinciano para o “vasto mundo”

À TINTA DE ESCREVER

Ao teu azul fidalgo mortifica

registrar a notícia, escrever

o bilhete, assinar a promissória

esses filhos do momento. Sonhos

Diante do fato terrível que foi a amputação de sua perna esquerda, o poeta compõe um poema que sintetiza toda sua obra: a experiência pessoal serve para prestar contas do destino de um homem

À MINHA PERNA ESQUERDA

Pernas

para que vos quero?

Se já não tenho

por que dançar,

Se já não pretendo

ir a parte alguma.

Pernas?

Basta uma.

Forma epigramática: poemas curtos com um tom de chiste, ironia sutil

L’AFFAIRE SARDINHA

O bispo ensinou ao bugre

Que pão não é pão, mas Deus

Presente em eucaristia

E como um dia faltasse

Pão ao bugre, ele comeu

O bispo, eucaristicamente

Paródia e intertextualidade

CANÇÃO DO EXÍLIO FACILITADA

lá?

ah!

sabiá...

papá...

maná...

sofá...

sinhá...

cá?

bah!

Experiências concretistas

O SUICIDA OU DESCARTES ÀS AVESSAS

cogito

ergo

pum!

EPITÁFIO PARA UM BANQUEIRO

negócio

ego

ócio

cio

O

Interioridade, consciência subjetiva e Dora, a musa de sua vida.

MADRIGAL

Meu amor é simples, Dora,

como água e o pão.

Como o céu refletido

Nas pupilas de um cão.