A balada do falso Messias

Moacyr Scliar

Em 1a pessoa.

Um grupo de judeus vindo da Rússia encontra no navio dois judeus da Palestina: cidade Eretz em Israel: Shabtai Zvi e Natan de Gaza. Os imigrantes vêm para o Rio Grande do Sul e se instalam numa colônia chamada Barão Frank, perto de Erexim.

Shabtai Zvi fica meses sem aparecer até que um dia se mostra transfigurado magro, cabeludo, barba pelo peito. Shabtai diz aos judeus para fazerem um barco com a madeira de suas casas para voltarem para Israel. Perguntam-lhe se para aguardar o Messias e Natan grita “O messias já chegou” e Shabtai abre seu manto mostrando o corpo cheio de chagas e o ventre envolto por um cinturão de pregos.

Os judeus começam a destruir as casas para construir o barco. Um dia Shabtai é chamado para curar um bandido que aterrorizava a região e que estava doente. Shabtai vai com Natan. À noite só Natan volta para a colônia, dizendo que ao chegarem o bandido Chico Diabo estava sendo tratado por um curandeiro, quando Shabtai se aproximou de Chico este deu um grito e morreu. Os capangas do bandido mataram o curandeiro no mesmo momento, e Natan fugiu sem saber o que houve com Shabtai.

Então Leib Rubim, padrasto da mulher de Shabtai – Sarita, diz que os judeus devem ir a Porto Alegre. E o Messias? Perguntam. Leib diz: “Que Messias, nada! O Messias já veio. Transformou a água em vinho. E nós vamos embora.”

Tempos depois, em Porto Alegre, a polícia traz Shabtai dizendo que o encontraram ao lado do cadáver de Chico Diabo e os capangas em volta caídos de embriaguês. Tudo que era água havia se transformado em vinho, inclusive um charco próximo.

Shabtai voltou e começou a trabalhar para Leib Rubim. Sarita morreu tempos depois. E o narrador diz que trabalha com Shabtai.

La Suzanita

Eric Nepomuceno

Narrador envolvido com questões sindicais vai a um encontro secreto com um homem numa cidadezinha (provavelmente mexicana) em um bar chamado La Suzanita. Depois de esperar algum tempo, uma moça muito bela aparece e diz “Sucedió algo” e manda-o fugir. À noite no hotel o narrador vê pelo noticiário que seu contato havia sido morto pela polícia e a moça do bar que era filha dele, fora presa e se chamava Suzanita. Marcado pela beleza da jovem, o narrador recorta sua foto do jornal e a guarda na carteira. Tempos depois é preso e a foto guardada o incrimina.

Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon

José Cândido de Carvalho

Um homem chamado Lulu Bergantim chega a uma cidade (Curralzinho) e é eleito prefeito. No meio da posse tira o paletó, arregaça as mangas, pega uma enxada e sai pelas ruas carpindo o mato, no que é imitado pela população. Nos meses seguintes pinta os muros da cidade e depois pega a picareta para abrir caminho à água encanada. Quando a cidade começa a erguer uma estátua em sua homenagem, Lulu é arrancado do posto de prefeito: enfermeiros o levaram para o Hospício Santa Isabel de Lavras, de onde era interno fugido.

A maior ponte do mundo

Domingos Pellegrini

Em 1a pessoa. Um barrageiro (eletricista) conta de como perdeu seu alicate de estimação trabalhando com o amigo de apelido “50 Volts” na construção frenética da ponte Rio-Niterói, a maior ponte do mundo.

Crítica da razão pura

Wander Piroli

Em 1a pessoa, Moacir conta que fora pescar com os amigos Cainca e Dr. Fontes e para fazerem fogo, arrancaram moirões (palanques) de uma cerca.

O dono da propriedade, um velho de espingarda na mão, diz querer a cerca de volta, mas sofre um ataque cardíaco e morre. Os três amigos abandonam o corpo e vão embora.

A porca

Tânia Jamardo Faillace

Um menino medroso presencia a morte de uma porca prenha. A mãe sangra o animal e o sangue jorra manchando a roupa do pai e do empregado, e também cobrindo o rosto da mãe. Depois disso o menino nunca mais beijou a mãe.

O arquivo

Victor Giudice

Conto irônico e fantástico em 3a pessoa.

Funcionário chamado joão (com letra minúscula) vai cada vez mais diminuindo seu salário, ficando mais pobre, passando fome e ficando cada vez mais feliz (ironia). Ao pedir aposentadoria já não tem mais salário, trabalha de graça. E o patrão diz: “ Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto?” A emoção impediu qualquer resposta. joão afastou-se. E joão transformou-se num arquivo de metal.

Guardador

João Antônio

Em 3a pessoa. História de um guardador de carros, o velho Jacarandá e suas peripécias para sobreviver. A casa: o oco de uma árvore; o instrumento de trabalho: a flanelinha. O vício é a cachaça. No final do conto rejeita uma moeda dada por um ricaço num carro importado: “Doutor, isso aí eu não aceito. Trabalho com dinheiro; com esse produto, não.” O homem arranca o carro e Jacarandá vai dormir no oco da árvore.

ANOS 80

ROTEIROS DO CORPO

Forças liberadas desde os anos 60 encontram aqui seu momento paradoxal de clímax e crise. A geração que fez a revolução sexual agora coloca no papel suas histórias. Explode o erotismo feminino. As grandes metrópoles fornecem cenários para as aventuras do corpo. As trocas sociais, no contexto totalmente urbanizado e erotizado, são roteirizadas pela cultura da mídia, cuja língua internacional é o inglês. Emerge a problemática homossexual. Mas a década que começou eufórica termina cética e deprimida por causa da Aids e da crise dos ideais coletivistas. Sensações de fracasso e vazio parecem anunciar um fim de século melancólico. (Ítalo Moriconi)

O Vampiro da Alameda Casabranca

Márcia Denser

Em 1a pessoa. Uma moça conta a história de uma noite regada a álcool, drogas, sexo, falsos intelectuais e frustração.

A narradora vai ao cinema com um poeta metido a filósofo e guru espiritual, ela o despreza, mas mesmo assim ao saírem do cinema, vai para o seu apartamento. Depois de submete-la à leitura de seus poemas, o poeta tenta levá-la para a cama, entretanto ela recusa.

Vão então para uma festa no apartamento de um amigo do poeta chamado Klaus. A narradora protagonista descreve as pessoas que encontra com desprezo e ironia. A festa é assim descrita: “A madrugada evoluiu naquele apartamento neoclássico, com ativa movimentação de garrafas de vinho, rodadas de cocaína, camembert rançoso e conversas idiotas”. No final da noite, a narradora chapada vai ao banheiro, vomita e sente uma tristeza secreta por se saber mole, dobrável, e ainda uma vez voltar a fazer coisas que não queria, não precisava, não desejava, todavia o álcool e a droga levavam a fazê-las.

O poeta a leva para a cama, mas “pobre animal sonâmbulo, se esvaindo entre minhas nádegas numa tortura aplicada de movimentos ineficientes, uma vez que não conseguia” (uma ereção).

Ela então adormece e quando acorda Klaus está entre suas pernas, ela pula da cama vestindo a roupa e vomitando. Vai para a rua, come um sanduíche, tenta ir a pé para casa, mas acaba dormindo num banco de praça. Horas mais tarde é acordada pelo vigia dizendo que haviam roubado seu casaco e sua bolsa. Pensa em voltar para casa e então lembra: estavam todos viajando. Todos os amigos, todos os sujeitos, todas as amigas etc. estava sem a bolsa, sem as chaves, com frio, fome e precisando de um banho. No táxi, suspirando, deu o endereço de Klaus.

Um discurso sobre o método

Sérgio Sant’Anna

“Ele se encontrava sobre a estreita marquise do 18o andar. Tinha pulado ali a fim de limpar pelo lado externo as vidraças. (...) Ele era um empregado recém-contratado da Panamericana – Serviços Gerais. O fato de haver se sentado à beira da marquise, com as pernas balançando no espaço, se devera simplesmente a uma pausa para fumar a metade de cigarro que trouxera no bolso. (...) Quando viu o ajuntamento de pessoas lá em baixo, apontando mais ou menos em sua direção, (...) chegou à conclusão de que o único suicida em potencial era ele próprio. (...)

Levantou-se imediatamente para retornar à limpeza das vidraças, quando um silêncio de expectativa neutralizado por um clamor de incentivo veio lá de baixo, para logo depois se transformar numa vaia, quando perceberam que ele era apenas um homem trabalhando, (...) e esta vaia foi recebida por ele com mágoa. (...) Ele virou-se novamente para a platéia e deu um passo miúdo adiante, para ouvir distintamente os gritos de “pula”, “pula”. (...)

Se pulasse transformar-se-ia numa personagem de jornal, um mártir da crise. (...) Um cordão de isolamento já fora estendido para que ele não caísse em cima das pessoas. (...) Não era belo. Era um rapaz de vinte e cinco anos, embora não parecesse. (...) Ele não era burro, apenas não crescera num ambiente propício a aprimorar sua educação. (...)

E o que o homem fez foi abrir os braços para o Cristo Redentor, movido um pouco por uma súplica vaga (...) e um pouco por exibicionismo ou espírito de imitação, (...) a massa vibrou lá embaixo. (...) Foi neste momento que se fez ouvir a voz. A voz trovejou não das alturas, mas da sala da firma de engenharia: “O senhor desça já daí porque está preso”, disse um policial. (...) O homem (...) então recuou na marquise até um limite (...) que (...) o colocava sob a jurisdição do corpo de bombeiros.

O representante mais categorizado desta corporação, que ali estava, (...) assumiu o comando das operações com um discurso (...): “Rapaz – ele disse. – Pra tudo na vida há remédio. (...) Por que não chega mais perto pra gente conversar?” (...) É preciso não esquecer que o homem não se instalara ali com a intenção de pular. (...) Virou-se então para o bombeiro, (...) poderia ter explicado, simplesmente, que estava limpando as vidraças, (...) mas a verdade é que haviam ocorrido em sua mente alguns fenômenos bastante complexos. (...) “É como se fosse um “outro”, compreende? – ele disse ao bombeiro, que o abraçava sem encontrar resistência, para conduzi-lo à sala. – Alguém possível dentro de mim, que estivesse soprando pensamentos na minha cabeça.” (...)

“É louco” – avisou lá para dentro, ao mesmo tempo que empurrava o homem para o interior da sala, onde foi imobilizado. Ele fora traído. (...) Mas nesse ínterim chegava (...) o chefe de pessoal da Panamericana – Serviços Gerais (...): “Você desonrou o uniforme (...) e portanto está demitido.” (...) Já o bombeiro (...) disse que o rapaz só ia trocar de roupa no hospital psiquiátrico, para onde seria levado. (...)

O homem da marquise, ao saber do seu destino, (...) previa, intuitivamente, que lá no hospital deveria haver um pátio onde, flanando à vontade debaixo das árvores ou sentado num banco, ele teria todo o tempo do mundo para encontrar e conhecer o tal “outro”, até que os dois se tornassem a mesma pessoa e falassem com a mesma voz.”

Alguma coisa urgentemente

João Gilberto Noll

“Os primeiros anos de vida suscitaram em mim o gosto da aventura. O meu pai (...) vivia mudando de trabalho, de mulher e de cidade. (...) Um homem amargurado por ter sido abandonado pela minha mãe quando eu era de colo. Morávamos (...) em Porto Alegre.

No final de 1969 meu pai foi preso no interior do Paraná. (...) No dia em que ele foi preso (...) puseram-me num colégio interno no interior de São Paulo. (...) Os colegas me ensinaram a jogar futebol, a me masturbar e a roubar comida dos padres. (...) Quando cresci meu pai veio me buscar e ele estava sem um braço. (...) Na estrada para São Paulo paramos num restaurante. Eu pedi um conhaque e meu pai não se espantou. (...) “Vamos para o Rio”, ele me comunicou. (...)

Meu pai me pôs num colégio em Copacabana e comecei a crescer como tantos adolescentes do Rio. (...) Até meu pai desaparecer novamente. Fiquei sozinho no apartamento. (...) Sabia que estava sozinho, com o único dinheiro acabando, mas era preciso preservar aquele ar folgado dos garotos da minha idade, falsificar a assinatura do meu pai (...) a cada exigência do colégio.

O dinheiro tinha acabado e eu estava caminhando pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana tarde da noite. (...) Vi um Mercedes parado na esquina com um homem de uns trinta anos dentro. (...) “Quer entrar?”, o homem me disse. Eu manjei tudo e pensei que estava sem dinheiro. “Trezentas pratas”, falei.

Ele abriu a porta e disse entra. (...) No dia seguinte meu pai voltou (...) e resolvi contar: “Eu ontem me prostituí, fui com um homem em troca de trezentas pratas.” Meu pai olhou-me sem surpresas e disse que eu procurasse fazer outra história da minha vida. Ele então sentou-se e foi incisivo: “Eu vim para morrer. A minha morte vai ser um pouco badalada pelos jornais, a polícia me odeia, há anos me procura.” (...)

Comecei a faltar às aulas e ficava andando pela praia, pensando o que fazer com meu pai que ficava em casa dormindo, feio e velho. (...) Ele já não acordava, tinha certos espasmos, enrolava a língua e eu assistia. O apartamento nessa época tinha um cheiro ruim, de coisa estragada. (...)

A campainha tocou. (...) Era o Alfredinho, (...) sentiu o cheiro ruim da casa, tenho certeza, mas fez questão de não demonstrar nada. (...) Quando meu pai lá no quarto me chamou, era a primeira vez que meu pai me chamava pelo nome, (...) o Alfredinho (...) foi caminhando de costas em direção à porta, (...) e o meu pai me chamou de novo com sua voz agonizante, o meu pai me chamava pela primeira vez pelo meu nome, (...) e eu fiquei parado na porta do quarto pensando que eu precisava fazer alguma coisa urgentemente.”

Idolatria

Sérgio Faraco

“Eu olhava para a estrada e tinha a impressão de que jamais na vida chegaríamos a Nhuporã. (...) Nosso Chevrolet era um trinta e oito (...) onde meu pai anunciava que fazia carreto na cidade. (...) A pouco mais de légua de Nhuporã o caminhão derrapou (...) e tombou de ré na valeta. O pai (...) deu um murro no guidom: “Puta merda”.

Agachou-se junto às rodas e começou a fuçar, jogando grandes porções de barro para os lados, (...) suspirando, praguejando, merda isso e merda aquilo. (...)

- Pai, pai, o caminhão ta afundando! (...)

- Não vê que é a água que ta subindo, ô pedaço de mula?

E riu. (...) Tirou do bolso uma fatia de pão: “Toma. Acho que não vamos conseguir nada por hoje. De manhãzinha passa a patrola, (...) eles puxam a gente. (...) Ô Moleza, vamos tomar um chimarrão?” Fiz que sim (...) e ele me jogou sua japona: “Veste isso, vai esfriar.” (...) E ele riu de novo. (...) A cara dele era tão boa e tão amiga que eu tinha uma vontade enorme de me atirar nos seus braços, de lhe dar um beijo, mas receava, (...) até que ele me chamou outra vez: “Como é, vens ou não?” Ai eu fui.”

Hell’s Angels

Márcia Denser

“(...) Conheci Robi precisamente no dia em que eu completava trinta anos, dirigindo amargurada meu automóvel para o analista. (...) Quando o ronco de uma motocicleta ao lado do automóvel sobrepujou a música em FM. (...) Havia esquecido que deixara o vestido levantar, exibindo as coxas, daí Robi, o motoqueiro, aparecer na minha janela. (...) Bem na verdade, fiz tudo para livra-me dele, mas o destino conspirou: (...) Motoca seguiu-me até a vaga da zona azul e, após observar divertido cerca de dezoito manobras humilhantes e malsucedidas, ofereceu-se para estacionar o automóvel de madame. Acertou na primeira. (...) Obrigada. Você tem telefone? (...) Meu nome é Robi. (...) O meu é Diana. Tchau. (...)

Passaram duas semanas. (...) Certa tarde (...) no escritório, eis Robi que surge (...): vamos sair? Caninos pingando sangue. (...) Ele, Robi, o motoqueiro. Era incrível. “Sente-se”, sorri divertida, (...) mas meus dedos tremiam. (...) Saímos. (...) Estávamos num bar. Eu bebia vodca com suco de laranja, ele coca-cola. (...) Classe média alta paulistana, Robi estudava bastante, (...) tinha papai, mamãe, uma governanta romena (...) e só pensava em duas coisas: garotas e moto. (...) Robi tinha 19 anos. (...)

Estávamos na época do Natal. Natal de 1976, (...) mais precisamente no dia 22 de dezembro, sexta-feira, o Robi tinha um problema: a irmãzinha de quatro anos, faltava comprar o presente dela. (...) “Uma boneca”, sugeri (...) e tive de ajudar a pagar. (...) Ele guiava sem destino (a boneca no banco de trás), perdidos no trânsito pesado daquela cidade cheia de luzes. (...) O olhar dele desceu agudo (...) sobre minhas pernas cruzadas. Senti-me desconfortável. Sugeri comermos. Ele disse está bem. (...) Fomos a uma cantina italiana. (...) Ajeitei-me na cadeira, pedi mais vinho, segurei sua mão debaixo da mesa, (...) apalpei suas pernas musculosas debaixo do grosso índigo blue, pedi-lhe para afastar as coxas, mergulhei a mão com segurança. (...) Retirei a mão, voltei ao vinho. (...) Não gostaria de ir para outro lugar? (...) Está bem. (...)

O quarto tinha um espelho redondo sobre a cama. (...) Robi respirou fundo e agarrou-me por trás. (...) Eu disse calma e ele me jogou no colchão como uma bola de pingue-pongue. (...) Deitou sobre mim, tentando desabotoar-me. Esta perdendo tempo, eu disse levantando e me despindo. (...) Estava deitada, fumando, quando sua massa rija desabou sobre mim. Procurei seus lábios mas ele disse não, estou resfriado. (...) Ajeitando-me de bruços, abraçava-me com as palmas e dedos gelados, comprimindo minhas costelas, machucando-me, em vez de acariciá-las. A coisa funciona só da cintura para baixo, como um vibrador elétrico, mas é bom, pensei, deixando-me penetrar rijamente pelas costas, usando, por assim dizer, só uma parte do meu corpo, como se o resto estivesse paralisado, ou morto. (...) Espiei Robi e seu desempenho: (...) braços esticados, mantendo-me firmemente afastada de seu corpo para ver melhor. O que me chateia é esse distanciamento crítico, parece estar consertando a moto – essa máquina de prazer – está olhando a coisa funcionar, (...) mais lento, mais acelerado, mais lento, agora rápido, acelere, mais rápido, mais rápido. Pronto. Terminou. Ouvi Robi ofegar. Continuei de costas. Estendi o braço e peguei um cigarro. (...) Virei-me para olhá-lo: havia algo de comovedor (...) no jovem adormecido. (...)

Vesti-me rapidamente, em silêncio. Fechei a porta sem ruído. Desci. (...) Ao entrar no automóvel, vi o pacote no banco de trás. (...) Carreguei essa boneca tempo demais. (...) Reunindo minhas últimas forças, consegui tirá-la do carro e levá-la até à portaria do hotel. (...) “É para o rapaz do 35. Acorde-o às seis e quarenta e entregue o presente. Com votos de Feliz Natal, pensei. Virei as costas e saí. (...)”

Bar

Ivan Ângelo

Em 3a pessoa. Moça entra num bar em que estavam três homens. Um no caixa, um funcionário no balcão e um freguês. A moça pede para telefonar, e enquanto os homens ouvem, ela marca um encontro com o namorado e em seguida faz mais uma ligação para sua mãe dizendo que vai ao cinema com uma amiga e posará na casa dela. Depois de se despedir da mãe, a moça ergueu-se, desligou o telefone e perguntou quanto é. O homem do caixa não estava mais lá e falou “pra você não é nada, gostosa”. A moça voltou-se rápida e viu que todas as portas do bar estavam fechadas. Os três homens, narinas dilatadas, formavam um meio círculo em torno dela.

Aqueles dois

Caio Fernando Abreu

Raul e Saul, dois homens jovens e bonitos, se conhecem numa repartição e vão, aos poucos, um se afeiçoando ao outro.

Lentamente começam a se aproximar, visitando-se aos domingos, indo a festas, posando juntos, há entre ambos a revelação gradual de um sentimento maior, de uma relação homossexual.

Até que um dia os dois são chamados pelo chefe da repartição que os despede por causa da “moral” do escritório. No fim ambos altivamente saem da repartição sendo observados pelos colegas.

Intimidade

Edla Van Steen

“(...) Ema e Bárbara eram tão inseparáveis quanto seus maridos, colegas de escritório. (...) No momento em que Ema depositava o refresco na mesa, ouviu-se um estalo.

- Porcaria, meu sutiã arrebentou.

- A alça?

- Deve ter sido o fecho – ergueu a blusa – veja.

Bárbara fez várias tentativas para fechá-lo.

- Não dá, quebrou pra valer. (...)

- Você acha que eu tenho seio demais?

- Claro que não. Os meus são maiores...

- Está brincando – Ema sorriu. (...)

- Duvida? Pode medir...

- De sutiã não vale – argumentou. – Vamos lá em cima. (...)

Ema acendeu a luz do quarto. (...)

- Decididamente perdi o campeonato. Em matéria de tamanho os seus seios são maiores do que os meus – a outra admitiu, confrontando.

Carinhosa, Ema acariciou as costas da amiga, que sentiu um arrepio.

- O que não significa nada, de acordo? – deu-lhe um beijo. (...)

- Que horas são? – Ema escovava o cabelo.

- Imagine, onze horas. Tenho que sair correndo.

- Que pena. (...)

- É tarde, Ema. Tchau. (...)

- Ora, Bárbara... (...)

- Boa noite, querida. Durma bem.

Ema (...) pensou, sentando no sofá. Um sentimento de liberdade interior brotava naquele silêncio. Um sentimento místico, meio alvoroçado, de alguém que, de repente, descobrisse que sabe voar. Por quê?”

I love my husband

Nélida Piñon

Este conto, em primeira pessoa, traz uma senhora de meia-idade que discorre com ironia sobre sua condição de esposa e de mulher. É nítido o desencanto com que ela observa sua posição submissa dentro da família e passiva dentro da sociedade. Sua vida limita-se a ser a sombra do marido, que mesmo de forma inconsciente, a trata com o machismo característico da nossa sociedade. O final assim como o título é de uma ironia melancólica: “Não posso reclamar. Sou grata pelo esforço que faz em amar-me. Empenho-me em agradá-lo, ainda que sem vontade às vezes. Sinto então a boca seca, seca por um cotidiano que confirma o gosto do pão comido às vésperas, e que me alimentará amanhã também. Um pão que ele e eu comemos há tantos anos sem reclamar, ungidos pelo amor, atados pela cerimônia de um casamento que nos declarou marido e mulher. Ah, sim, eu amo meu marido.”

Toda Lana Turner tem seu Johnny Stompanato

Sonia Coutinho

Uma mulher comum, Melissa, lê uma reportagem sobre a atriz Lana Turner. Lana, depois da fama em Holywood, no auge da beleza, se envolve com o mafioso Johnny Stompanato. Depois de um tempo de relação, Johnny a persegue por todos os países nos quais Lana vai fazer seus filmes.

Um dia a filha de Lana, Cheryl, durante uma briga do casal, mata Stompanato com uma facada. A menina é julgada e absolvida, enquanto Lana vê sua fama e beleza decaírem.

King Kong X Mona Lisa

Olga Savary

“(...) Ela acha que o amou desde esse primeiro momento. (...) Um amor sem quase nada de particular. (...) Então era isso amar? Amor não era. Era paixão. (...) E a paixão é um tanto trágica. Assim a aceitava: com esforço, com dor, mas também com gozo. (...) King Kong – ela pensou –, vou chamá-lo assim, assim vou chamar a fera que me dará vida. (...) Uma vez que lhe dissera o nome que secretamente lhe dava, houve o espanto: mas não combina com você, que é minha Mona Lisa. Ela sorriu sem dizer nada. (...) Um ser amorável essa fera, mas também de aguda crueldade. (...) King Kong: o êxtase e o horror.”

Flor de cerrado

Maria Amélia Mello

“(...) Anda logo pra cá e fica quietinha ou te passo fogo. Se eu dissesse que o medo nasce no estômago como uma flor do cerrado, deveria acrescentar que nascia uma plantação bem no meio da minha barriga. (...) Ele me olhava como um menino. (...) Que que tá olhando, hein dona? Nunca viu não, é? (...) Me diz seu nome, diz. Ele se espantou. Que qui há, dona? (...) Por que é que você assalta? Ah! que isso, dona? (...) Tá querendo o quê, hein dona? Fazer uma sacanagenzinha, é? (...) E foi chegando mais perto. (...)

Vem cá, vem. (...) Ele beijava sem rancor. (...) Ele balançava o corpo contra o meu. (...) Machucava e eu gostava. (...) Gostosa, faz assim, abre mais. Eu deixava tudo. Ele passava a mão, esfregava o peito contra o meu, forçava a perna, mordia meu ombro, babava meu rosto todo e me chamava de puta, vaca, vagabunda... (...) Ele suava. (...) Estou gozando, gozando. (...) Eu estava aberta, vasculhada, escancarada pra rua. (...) Ainda colado em mim, amparado, ele mandou eu virar. Obedecia. Anda, dá logo essa bunda, senão leva é muita porrada. (...) O prazer alastrava corpo inteiro. (...) Relaxamos. A voz do menino cortou o silêncio. Fica aí quietinha, nada de virar. (...) Ouvi os passos dele se afastando, correndo no asfalto. Minha perna estava bamba. (...) Estranho, ele não levou o relógio. Ficaria tão bem nele. (...) Ele podia ter me matado, eu sei. Ele bem que podia ter me salvado.”

Obscenidades para uma dona-de-casa

Ignácio de Loyola Brandão

Conto em 1a pessoa. Mulher de meia-idade, casada, recebe dia sim dia não cartas obscenas com palavrões referentes a sexo. A senhora que aparentemente demonstra indignação com o teor das cartas, na verdade fica ansiosa por recebê-las. O certo é que ela é uma mulher enrustida, frustrada por não conseguir fazer com o marido tudo o que se descreve nas cartas. Fora criada de maneira tradicional para manter a compostura e aparentemente sente aversão a palavras e atos relacionados ao sexo. No fim do conto revela-se que ela escrevia as cartas e as mandava pro seu próprio endereço. Todas as obscenidades eram escritas por ela mesma.

O santo que não acreditava em Deus

João Ubaldo Ribeiro

Conto bem humorado em linguagem coloquial. Um pescador conhece um homem que diz ser Deus. Depois de provar que realmente era Deus, pede ao pescador que o leve à feira de Maragogipe, pois precisa convencer Quinca das Mulas a se tornar santo. Chegando à feira e encontrando Quinca, Deus e o pescador vão com o homem a um bar e depois passam a noite num bordel.

No outro dia, Deus revela a Quinca sua identidade e o convida a ser santo. Depois de muito brigarem, Quinca termina por não acreditar e não aceitar ser santo. Quando o pescador (que é o narrador) vai levar Deus ao lugar onde o encontrou, o Divino ascende ao céu, dizendo: “Se incomode não, disse ele, nem toda pesca rende peixes.” E então ficou azul, esvoaçou, subiu nos ares e desapareceu no céu.

O japonês dos olhos redondos

Zulmira Ribeiro Tavares

Dois amigos aposentados discutem sobre o vizinho tintureiro de um deles. Com uma argumentação forte um dos amigos consegue “provar” que apesar de o tintureiro ser loiro e ter olhos azuis, na verdade se tratava de um japonês. O conto é uma sátira àqueles que usam argumentação falsa, mas segura, para tentar provar coisas estapafúrdias.

Vadico

Edilberto Coutinho

Em 1a pessoa. Um velho, que é o narrador do conto, vê na televisão de um bar um documentário sobre Vadico, um grande jogador na juventude que agora estava velho, pobre e esquecido. Enquanto o velho assiste ao documentário, senta-se uma mulher ao seu lado e começa a beber conhaque.

No final do documentário noticia-se que Vadico havia se suicidado naquele dia, nesse mesmo momento o velho percebe que a mulher ao seu lado tomara um vidro de pílulas com o conhaque e também se suicidara.

Linda, uma história horrível

Caio Fernando Abreu

Conto em 3a pessoa. Filho chega na casa da mãe, depois de muitos anos de ausência. Mãe e filho conversam até que a mulher decide dormir. Quando fica só o filho olha para a velha cadela da família, chamada Linda. A cachorra está doente com manchas rosadas sob o pêlo. Nesse momento ele tira a camisa e vê no espelho seu próprio peito, também coberto por manchas rosadas sob os pêlos. Subentende-se que o rapaz era aidético.

Os mínimos carapinas do nada

Autran Dourado

Na cidadezinha de Duas Pontes, os homens ricos, os coronéis fazendeiros tinham um passatempo: trabalhar pedaços de pau com canivete. Era uma forma de usar o tempo livre para não fazer nada. Havia três grupos desses carapinas (carpinteiros) do nada. O primeiro grupo era dos que fazia carrinhos, caminhões, presépios que eram dados de presente, pois quem se dedicava a este “ofício” eram os coronéis abastados, assim como o 2o e o 3o grupo.

A segunda categoria era dos fazendeiros que moldavam a madeira com canivete para fazer colher de pau, algo de grande inutilidade.

A terceira e mais “sublime” categoria era dos coronéis que passavam boa hora do dia moldando pedaços de pau com seus canivetes até virarem: nada. Um dos representantes deste grupo é o avô do narrador do conto, vovô Tomé, que morre com o canivete na mão fazendo caracóis na madeira.

“E os anos passaram e eu me afastei de vovô Tomé. Fui para Belo Horizonte, onde fiz meu curso superior sustentado por ele. É com remorso que me lembro de que lhe escrevi apenas umas minguadas cartas. Fiquei sabendo por uma carta de vovó Naninha que ele tinha morrido.

Voltei imediatamente a Duas Pontes. Vovó Naninha disse que ele morrera de pé, tirando um enorme caracol. Tinha encontrado o seu nada.

Vovó Naninha me deu o seu canivete preferido. Não sei o que fazer com ele, é de outra maneira que procuro o meu nada.”

Conto (não conto)

Sérgio Sant’Anna

Conto metalingüístico que versa sobre a arte da escrita: o que, quem e como narrar uma história.

“Mas digam-me: se não há ninguém, como pode alguém contar esta história? Mas isto não é uma história, amigos. Não existe história onde nada acontece. E uma coisa que não é uma história talvez não precise de alguém para contá-la. Talvez ela se conte sozinha.

Mas contar o que, se não há o que contar? Então está certo: se não há o que contar, não se conta. Ou então se conta o que não há para contar.”

ANOS 90

ESTRANHOS E INTRUSOS

Os anos 90 descartam o baixo astral e inventam um fim de século rico de imagens e criatividade. É uma década de estranhos e intrusos na festa da cultura: às mulheres somam-se os negros, os gays, os brasileiros em Nova York... Na época que celebra a diferença, nossos contistas produzem alegorias do híbrido. Combinam o humano ao animal, exploram a fusão com o tecnológico. Pelo que deixa entrever a arte de nossos melhores contistas atuais, parece que no futuro próximo vamos viver num país mais heterogêneo, mais plural, embora um pouco hesitante em relação às suas novas metas. A diversidade de estilos aponta para um período de transição, como aconteceu no final do século passado. Mas não há temor nem entusiasmo diante do inesperado, diante do todo outro que pode vir – ou não. (Ítalo Moriconi)

A Confraria dos Espadas

Rubem Fonseca

           Numa sociedade secreta (A confraria dos espadas), um grupo de homens desenvolve o orgasmo múltiplo sem ejaculação, buscando uma forma mais requintada de sexo, que os distanciasse dos animais, meros procriadores. Embora esta técnica se transforme em uma prisão, ela revela que, para Rubem Fonseca, adiar o orgasmo rápido é evitar o sem sentido da vida, através da tentativa de interromper o  nascimento e a morte. Neste seu universo corrompido, aos seres resta apenas o encontro entre dois corpos, prolongado ao máximo.

Estranhos

Sérgio Sant’Anna

“Cheguei à portaria daquele edifício em Botafogo, para ver o apartamento, quase ao mesmo tempo que uma mulher. (...) Quando o porteiro estendeu a chave na minha direção ela disse:

- Não podemos subir todos juntos?

(...)

- Também está procurando apartamento há muito tempo? – perguntei, para quebrar o gelo entre nós.

- Não. Este é o segundo.

Chegamos ao décimo primeiro andar, peguei a chave e introduzi facilmente na fechadura. Ela entrou. (...)

- Você é da polícia? – ela perguntou.

- Não, sou jornalista.

(...)

- Estou com trinta e quatro anos – a mulher disse.

- Parece ter bem menos – falei.

- Ele parece que não acha – ela retrucou.

- Ele quem?

- Não interessa. E você, quantos anos tem?

- Trinta e dois.

- Ele tem cinqüenta – ela falou com orgulho.

Foi aí que eu disse a grande besteira:

- Ele te abandonou?

Sem qualquer aviso prévio, ela desatou num chovo convulsivo. (...) Ela arrancou o vestido de baixo para cima, de um só golpe. Havia parado de chorar. Eram seios perfeitos. (...) A mulher, por sua vez, desatava meu cinto, para depois baixar minha calça e minha cueca. (...)

Segurei os braços dela.

- Eu sou noivo.

Ela deu uma gargalhada artificial. (...)

Creio poder revelar que gastamos duas camisinhas e fizemos de tudo. (...)

- Pretende ficar com o apartamento? – perguntei enquanto nos vestíamos.

- Uma gaiola dessas? Você deve estar brincando.

(...)

- Me diga ao menos o seu nome – implorei.

- O que passou, passou, está certo?

- Não quer nem saber o meu?

- Não – ela disse, batendo a porta.

O que tenho mais a dizer?

Terminei com a Clarice e vim morar sozinho no apartamento 1101, B, do Condomínio Bois de Boulougne, na expectativa de que o coroa um dia aprontasse mais alguma com a mulher, e ela, farejando o meu destino, viesse me usar para uma nova vingança.”

Nos olhos do intruso

Rubens Figueiredo

Conto surreal em que um homem encontra cópias (clones) de si numa cidade moderna.

O anti-Natal de 1951

Carlos Sussekind

Em 3a pessoa.

Dr. Lourenço Laurentis, Curador de Menores do Distrito Federal, decide passar o Natal com seu filho numa viagem de trem. Sem presentes, felicitações ou brindes. Ele observando a paisagem e o filho lendo: um anti-Natal. Depois de várias dificuldades, ele finalmente consegue comprar as passagens.

Olho

Myriam Campello

“Pois o inferno é mesmo amar o proibido. (...) Experimente querer por um segundo impensável a própria irmã, querer como um homem quer uma mulher. (...) A primeira carta anônima meteu-se à minha correspondência mês atrás, (...) dizia apenas “eu sei tudo”.

(...) Dando aulas à noite, passo por uma rua escurecida, troncos imersos mergulhados na sombra que os namorados aproveitam como pontos de apoio. Por que também não posso levar minha irmã para lá, erguer sua saia e comê-la contra a casca rugosa? Reivindico para nós os mesmos atos que qualquer par de amantes. A idéia persegue-me dia e noite. (...) As margens de minhas anotações se cobrem com desenhos de homem e mulher em pé contra uma árvore, em posição de cópula. (...)

Há cinco dias nova carta anônima. “Estou de olho em vocês”. (...)

Morrendo-me a mãe viúva há quatro anos e não suportando mais o seminário, resolvi abandoná-lo. Decidi ser professor. Na casa sobrara apenas minha irmã, que não via há tempos.

Espantei-me com a desabrochada moça a receber-me, bonita, quase uma estranha nos seus dezoito anos. Aos poucos, porém, fluindo os meses, uma intimidade nova nasceu entre nós. Gostava de vê-la sair do banho. Deslocava-me para o quarto dela, atraído de corpo e alma. (...) Buscava secretamente novas formas de contemplá-la. (...) Eu a observava pintar-se dentro do banheiro. (...) Quando pintava a boca com o batom vermelho, esperava que saísse e masturbava-me furiosamente no ar saturado de perfume. (...)

Um dia, certa greve de professores me fez voltar mais cedo do trabalho. (...) Empurrei a porta do banheiro. Minha irmã cobriu-se com a toalha. Acabara de tomar banho. Finalmente o desejo me sufocou. Fui até ela e puxei a toalha. Ainda tentou resistir, virou-se mas acabou cedendo. (...) Pegou o seio duro com a mão e o pôs em minha boca. (...) Puxei-a para o quarto e joguei-a na cama. (...) Assim, fomos de roldão nas asas da carne até que o esgotamento nos fez dormir, eu ainda com o membro dentro dela.

Desde então vivemos o que podemos. (...) Quero ser visto, exijo que me vejam. Quero o olho do mundo sobre nós. (...) Chego em casa incendiado como nunca. Um bilhete de minha irmã avisa-me que logo voltará. (...) Meus olhos caem sobre a correspondência na mesa. (...) “Um gesto em falso e eu os denuncio.” Uma onda quente de amor envolve-me com doçura. Somos iguais. Precisamos do peso do mundo. Minha irmã usa cartas anônimas. Já eu quero a árvore e a rua escura. Esta noite me casarei com ela sob a árvore. Esta noite sem falta.”

Zap

Moacyr Scliar

Menino de treze anos que mora com a mãe é viciado em tv. “Estou num canal, não gosto – zap, mudo para outro. Não gosto de novo – zap, mudo de novo.” O pai, um roqueiro que o abandonou quando o menino nasceu, está na televisão sendo entrevistado. A entrevistadora pergunta ao roqueiro sobre seu filho, o roqueiro fica embaraçado e começa a dedilhar a guitarra, enquanto o filho do outro lado da tela “zap”, muda de canal para ver uma mulher nua.

Days of wine and roses

(Dias de vinho e rosas)

Silviano Santiago

“Você acorde durante a noite. Você não sabe onde se encontra. (...) Você está vivendo no apartamento como se morasse num quarto de hotel. (...) A tempestade de neve que desabou na quinta-feira preencheu o fim de semana de toda a cidade. (...) Na quinta-feira, você não sabe por que, por que você chamou Roy ao telefone. Não o via fazia muitos anos. (...) Sem mais nem menos, você tinha desaparecido da vista dele havia quinze anos. Você tinha convivido com ele durante seis anos. Fora amante dele. (...) Roy te disse que se lembrava de você. Muito.

“Lembrar até que você pode, não sou eu quem vai duvidar, mas será que pode me reconhecer?”

“Só tirando a prova”, disse ele.

(...) Depois de alguns dias de silêncio, você diz a Roy que voltará a chamá-lo qualquer dia destes.

Ele não se surpreende com o término abrupto do telefonema. Te deseja boa sorte. Você desejou o mesmo para ele e desligou. (...)

A noite desce cedo no inverno e parece que vai descendo mais cedo neste domingo. Você aperta as teclas do telefone. Compõe o número de Roy. Uma voz gravada do outro lado diz que o número discado se encontra desativado. (...) Você busca na lista telefônica o número da informação. Pede o telefone de Roy. A telefonista informa que o número não pode ser fornecido.

Ela lamenta e diz que o assinante trocou de número e acrescenta que, por uma módica quantia mensal, ele tem o direito de não ter o seu novo número publicado na lista e de impedir sua divulgação pela telefonista de plantão.”

A nova dimensão do escritor Jeffrey Curtain

Marina Colasanti

Conto em 3a pessoa sobre um escritor, Jeffrey Curtain, que sofre morte cerebral. Ele é cuidado pela esposa Roxanne que continua a amá-lo mesmo no estado em que se encontra.

Jardins suspensos

Antonio Carlos Viana

Em 1a pessoa. Menino vive com sua mãe e um irmão que aparenta ter problemas mentais, não fala com ninguém e vive em casa isolado. No final do conto o irmão que sempre usava batas femininas, levanta sua roupa e revela ao narrador que é uma mulher, mostrando sua vagina.

O misterioso homem-macaco

Valêncio Xavier

Um caçador mata uma macaca e leva seu filhote para casa. A mulher do caçador cuida do filhote de macaco, tratando-o como gente e filho. O tempo passa e numa noite de temporal o macaco levanta da cama, acende a lamparina e começa a falar. Gargalhando, diz que seu nome era João da Silva.

“Foi nessa noite amaldiçoada que ele se revelou, que se fez homem aquele macaco amaldiçoado que em maldita hora eu fui trazer para dentro da minha casa. Esse macaco que fez o padre enlouquecer no dia do seu batizado. Que na escola onde foi aprender as primeiras letras atazanou tanto a professorinha que ela, coitada, abortou. Esse macaco que sempre tratei como filho e que abusou da inocência da minha filha, sua enteada, e fez mal para ela, matando minha mulher de desgosto. (...) Que de tanto me judiar, me transformou no velho aleijado que hoje sou. Tanta sacanagem, tanta maldade, tanta coisa ruim esse João da Silva fez, e ainda faz em suas andanças pelo mundo, que se eu fosse contar levava a vida inteira e ainda não chegava ao fim.”

Dois corpos que caem

João Silvério Trevisan

“Por simples acaso, dois desconhecidos encontram-se despencando juntos do alto do Edifício Itália, no centro de São Paulo.

- Oi – disse o primeiro, no alvoroço do início da queda. – Eu me chamo João. E você?

- Antonio – gritou o segundo.

- O que você faz aqui?

- Estou me matando – respondeu João. – E você?

- Que coincidência! Eu também.

(...)

Foi quando os dois corpos se estatelaram na Avenida São Luiz.”

Conto de verão no 2: Bandeira Branca

Luis Fernando Veríssimo

História de um casal que se encontrava somente no carnaval. Desde os 4 anos até os 15 os dois, Janice e Píndaro, sempre dançavam juntos a música Bandeira Branca. No carnaval em que os dois estavam com 15 anos dançaram a música um encostado no ombro do outro.

Depois desse baile, ficam 15 anos sem se ver até se reencontrarem por acaso num aeroporto. Ela está casada, ele separado. Ele pensa em dizer que nunca a esqueceu, e ela não consegue sequer lembrar o seu nome.

Por um pé de feijão

Antônio Torres

Em 1a pessoa, um menino conta que aquela seria a melhor colheita da fazenda de seu pai, mas fora arrasada por um incêndio. Todos ficam tristes, mas o pai forte e corajoso pensa em recomeçar.

“- Agora não se pensa mais nisso, não se fala mais nisso. Acabou.

Então eu pensei: O velho está certo.

Eu já sabia que quando as chuvas voltassem, lá estaria ele, plantando um novo pé de feijão.”

Viver outra vez

Márcio Barbosa

Moça se aproxima de um velho líder da comunidade negra e faz com que ele retome a alegria de viver. Primeiro tornam-se amigos e depois amantes. No final ela fica grávida.

“Quando eles passavam, grávidos, ouviam os vizinhos comentarem:

É o filho – uns diziam.

O neto – outros apostavam.

- É o amor nos recriando – diziam um ao outro.”

Estão apenas ensaiando

Bernardo Carvalho

Conto em 3a pessoa. Um ator está ensaiando uma fala para seu diretor. O diretor manda o ator repeti-la várias vezes. A fala refere-se à morte de uma outra personagem. O ator espera sua mulher que virá buscá-lo após o ensaio. Quando o ator vai repetir mais uma vez a fala sobre a morte, percebe que um homem dava a notícia da morte da sua mulher ao diretor.

O importado vermelho de Noé

André Sant’Anna

Conto surreal em 1a pessoa que cita alguns fatos históricos como a eleição de Celso Pita para a prefeitura de São Paulo. Na verdade o conto dá a entender que o próprio prefeito está fugindo da cidade e indo para Nova Iorque, onde chove dinheiro, em seu carro vermelho importado da Alemanha.

Estas expressões: “Está chovendo dinheiro em Nova York. Com o meu carro velho, importado da Alemanha, logo estarei no aeroporto e voarei para Nova York...” são repetidas inúmeras vezes no conto.

No final da história o prefeito que está a caminho do aeroporto se vê no meio de uma tempestade que faz o rio Tiete transbordar inundando o carro e afogando o prefeito com as águas e o excremento do rio de São Paulo famoso por sua poluição. O rio cheio de excremento que afoga o prefeito pode ser entendido como uma metáfora da situação política da cidade naquele momento, pois Celso Pita e Paulo Maluf, seu mentor, viram-se envolvidos em acusações de corrupção e desvio de verbas públicas.

15 Cenas de descobrimento de Brasis

Fernando Bonassi

Conto dividido em 15 partes que faz uma revisão crítica do nosso passado histórico em contraposição com a contemporaneidade, mostrando que as diferenças entre o passado e o presente não são muito grandes.

“Os missionários chegaram e cobriram das selvagens o que lhes dava vergonha. Depois as fizeram decorar a Ave Maria. Então lhes ensinaram bons modos, a manter a higiene e lhes arranjaram empregos nos hotéis da floresta, onde se chega de uísque em punho. Haveria uma lógica humanitária exemplar no negócio, não fosse o fato das índias começarem a deitar-se com os hóspedes”.

“Minha terra tem campos de futebol onde cadáveres amanhecem emborcados pra atrapalhar os jogos”.