A

estudante Chen Ling Long, de 18 anos, fez parte do batalhão de 10,2

milhões de chineses que prestou em junho o exame nacional de admissão

nas universidades, o maior vestibular do mundo. Chen e outros 6,3

milhões de aprovados se juntaram a uma população universitária que

cresce a taxas recordes desde o fim da década de 90. “Você nunca

esquece a sua pontuação”, disse Chen ao Estadão.edu no refeitório da

Universidade de Esportes de Pequim, onde cursa o 1º ano de Inglês.

Chamado

de gaokao, o vestibular é visto pelos candidatos como um momento

crucial, capaz de definir o sucesso no ultracompetitivo mercado de

trabalho chinês. A aprovação no exame é um dos mais fortes símbolos de

status social em um país que tem uma milenar tradição de valorização do

estudo e da figura do intelectual. Dirigentes de vilas rurais que têm

moradores aprovados no gaokao fazem questão de divulgar a informação

aos visitantes.

O exame nacional é realizado nas mesmas datas,

7 e 8 de junho - em algumas regiões, também no dia 9 - e mobiliza a

sociedade chinesa. Há um espírito coletivo de apoio aos candidatos. Em

várias cidades, eles têm transporte público gratuito nos dias de prova

e muitos taxistas trabalham como voluntários para transportar

estudantes de graça. Alunos que esquecem documentos são levados de

volta à casa em carros da polícia com sirenes ligadas, para retornar a

tempo de realizar o exame.

FILHOS ÚNICOS

Os pais

dos vestibulandos têm participação ativa nos dias de prova. Uma das

imagens recorrentes nessas ocasiões é a de homens e mulheres aflitos à

espera dos filhos nos portões dos locais de exame. Em virtude da severa

política de controle de natalidade adotada desde o fim dos anos 70, a

China tem uma legião de 100 milhões de filhos únicos, sobre os quais

recaem as expectativas dos pais e dos quatro avós.

Antes das

provas, muitos pais vão aos templos erguidos em homenagem a Confúcio

para rezar pelo sucesso dos filhos. Filósofo que marcou como nenhum

outro a identidade chinesa, Confúcio (551-479 a.C.) era um defensor do

estudo e aperfeiçoamento constantes. Foi ele quem inspirou o modelo de

seleção de funcionários do Império por exames abertos a todos e

baseados no mérito dos candidatos.

Essa tradição de respeito à

educação foi brutalmente atacada durante a Revolução Cultural

(1966-1976), quando todas as universidades foram fechadas e os

estudantes mandados à zona rural para trabalharem a terra e serem

“reeducados” pelos camponeses. Só em 1977, um ano após a morte do líder

da Revolução Cultural, Mao Tsé-tung, o gaokao foi restabelecido. Em

1978, a China tinha 856 mil universitários. Hoje são 20,2 milhões.

Como

virtualmente todos os inscritos no gaokao, Chen Long sabe de cor sua

nota, 591 pontos em 750 possíveis. O resultado não foi suficiente para

ela ser admitida na instituição de preferência, o Instituto de

Tecnologia de Xangai, mas permitiu que ela entrasse na Universidade de

Esportes de Pequim, a número 2 da sua lista. Isso ocorreu porque o

exame divide as universidades, das de elite às de menor prestígio. O

candidato pode escolher em ordem decrescente um número limitado de

instituições e cursos de sua preferência em cada um desses níveis, aos

quais terá acesso se atingir a nota de corte exigida.

Apesar de

seu caráter nacional, o vestibular chinês não tem, desde 2003, provas

idênticas em todo o território. Dezesseis regiões, de um total de 32,

elaboram seus próprios testes, seguindo orientações dadas pelo

Ministério da Educação. Chen, por exemplo, fez o teste em sua província

de origem, Fujian, mas podia se candidatar a qualquer universidade do

país, como todos os demais estudantes.

FRAUDES

Liu

Haifeng, diretor de Centro de Pesquisa em Educação Superior da

Universidade de Xiamen, afirma que o modelo regionalizado reflete a

diversidade do país e evita o impacto nacional de eventuais fraudes.

Liu lembra um caso real para justificar a necessidade de mudança. Em

determinado ano, um dos temas de redação era a história de uma mãe que

dizia gostar de comer a cabeça do peixe. Na verdade, ela queria que os

filhos ficassem com a melhor parte, o corpo, e fingia gostar de comer o

que supostamente era a menos saborosa. Mas para os moradores da

Província de Guangdong, no sul da China, a cabeça é a melhor parte do

peixe. A mãe que parecia generosa no norte do país era uma egoísta no

sul.

Por outro lado, o combate a fraudes é um dos maiores

problemas para as autoridades, principalmente por causa dos recursos

tecnológicos cada vez mais sofisticados à disposição dos candidatos.

Liu disse que várias escolas utilizam bloqueadores de sinal de

celulares durante os exames e os alunos são revistados para que não

entrem nos locais das provas com aparatos eletrônicos.

Os

responsáveis pela elaboração dos testes ficam isolados durante um mês

antes da realização do gaokao e estão sujeitos a pena de 7 anos de

prisão caso revelem o conteúdo da prova a algum candidato ou a

terceiros. Estudantes pegos colando no gaokao ficam proibidos de fazer

o exame por um período de 1 a 3 anos. As autoridades também registram o

fato no prontuário do vestibulando, que o acompanhará por toda a vida.

O

Ministério da Educação sustenta que o número de fraudes tem caído a

cada ano e no exame de 2009 as irregularidades envolveram 2.219

candidatos, o equivalente a 2,3% do total. O mais célebre caso de

fraude do gaokao deste ano incluiu a contratação de 17 estudantes da

Província de Shandong, que tem um dos melhores padrões de ensino do

país, para realizarem o exame no lugar de candidatos na Província de

Gansu.

O esquema foi revelado quando um dos fiscais percebeu que

o rosto da pessoa que se apresentou como candidato era totalmente

diferente do da fotografia que constava de sua ficha de inscrição.

Segundo Liu, algumas províncias estão coletando digitais dos estudantes

para tentar impedir que outras pessoas façam os testes em seus lugares.

Além

das questões regionais, o gaokao oferece duas provas distintas para

alunos das áreas de Humanas e Exatas, que na China são chamadas de

Artes e Ciências. Mas a escolha não depende do curso que o candidato

pretende fazer na universidade, mas sim do que ele estudou no 2º grau.

No

fim do 1º ano do ensino médio, os chineses têm que definir se querem

estudar Humanas ou Exatas nos dois anos seguintes. Um aluno de Exatas

pode decidir cursar Filosofia na universidade, mas terá de fazer no

gaokao uma prova com questões de química, biologia e física. As provas

específicas para as áreas de Humanas são as de história, geografia e

política. Além da redação, há três disciplinas comuns a estudantes de

Humanas e Exatas: chinês, matemática e língua estrangeira, que

normalmente é o inglês.

Quem consegue ultrapassar a barreira do

vestibular invariavelmente afirma que a vida universitária é muito mais

tranquila que a do ensino médio, na qual os estudantes viviam sob a

constante pressão do desempenho no gaokao. O câmpus também dá aos

filhos únicos chineses a chance de viverem com pessoas da mesma idade

durante o período de duração dos cursos. Quase todos os estudantes

moram nos dormitórios das universidades.

He Yang Yi, de 18 anos,

foi aprovada este ano para o curso de Comunicação no International

College of Beijing. Seus pais são de Pequim, mas He Yang decidiu morar

no câmpus, assim como todos os seus colegas de classe.

SEM GRATUIDADE

Outra

característica do ensino superior chinês é a cobrança de mensalidades,

mesmo em instituições públicas. A família de Chen paga anuidade de US$

880 na Universidade de Esportes de Pequim, mais US$ 132 pelo

dormitório, dividido entre seis alunos. Os pais de He Yang pagam 30 mil

yuans por ano, o equivalente a US$ 4,4 mil, valor que supera a renda

per capita do país. No International College, os professores do curso

de Comunicação são estrangeiros e as aulas, ministradas em inglês. Os

estudantes ficarão dois anos na China e completarão o curso na

Universidade de Bedfordshire, Inglaterra, onde terão a opção de

permanecer mais um ano para o mestrado. O ano na Inglaterra custará à

família de He Yang US$ 29,4 mil.

Apesar das reservas de muitos

chineses ao padrão acadêmico das suas universidades, as instituições de

elite do país têm ganho prestígio internacional. O conceituado ranking

das 200 melhores universidades do mundo preparado pelo jornal britânico

The Times traz na sua última edição seis representantes da China. O

grupo é liderado pela Universidade Tsinghua, que tem sede em Pequim.

Única instituição brasileira a aparecer na lista no ano passado, na

196ª posição, a Universidade de São Paulo foi excluída do ranking em

2009.

Quando saem da faculdade, os estudantes chineses enfrentam

uma nova barreira, cuja transposição está cada vez mais difícil:

encontrar emprego em um mercado inundado por profissionais diplomados.

Fora das instituições de elite, muitos dos formandos não atendem aos

requisitos mínimos de seleção das grandes empresas, principalmente

multinacionais.

A principal crítica que se faz ao gaokao está

na origem dos problemas enfrentados pelos recém-formados. Para seus

detratores, o exame não estimula o pensamento criativo e independente e

premia apenas a capacidade de memorização do aluno, que terá notas mais

altas quanto mais se aproximar das respostas-padrão. Nada muito

diferente do que grande parte deles verá nas universidades.