Gilberto Cardoso da Rosa tem 60 anos. Completará 61 daqui a poucos dias. Há dois anos, nem pensava em voltar a estudar.

Há dois dias, recebeu a notícia de que passou em primeiro lugar no curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso, depois de mais de 40 anos sem estudar. O caminho de Gilberto para o sucesso no vestibular da universidade mais disputada de Mato Grosso começou em 2006, quando viu no estudo uma alternativa após um derrame que paralisou o lado esquerdo de seu corpo.

O novo acadêmico de Filosofia da UFMT trabalhou como aeronauta (piloto) por mais de 30 anos. A data do último vestibular que exerceu se perdeu na memória de Gilberto. Segundo ele, foi durante o regime militar, na década de 60. Na época, o sonho dele era passar para Medicina. Sem sucesso na prova, o então rapaz decidiu que o mais viável para o momento era trabalhar. Os estudos ficaram, então, esquecidos, até que em 2006 um derrame forçou Gilberto a parar de trabalhar.

O aeronauta conta que há aproximadamente cinco anos chegou a uma encruzilhada pessoal. Percebeu que era muito novo para se aposentar e que era muito velho para entrar em uma companhia aérea como piloto. Divorciado, com cinco filhos e seis netos, Gilberto decidiu então lutar por causas sociais, militando pelo Movimento Sem-Terra. Em 2006, desiludido com a militância, decidiu voltar para Cuiabá, onde mora desde que tinha um ano de idade. Logo em seguida, sofreu o derrame.

Sem o movimento do lado esquerdo do corpo, ele começou a procurar opções para levar a vida. Chegou à conclusão que, sem poder contar com a força, o melhor era aumentar o conhecimento. Para testar se estava ainda com “cabeça” para enfrentar um cursinho pré-vestibular, fez a prova para o Cuiabá-Vest – curso preparatório gratuito oferecido pela prefeitura - e foi surpreendido com o primeiro lugar na turma matutina do centro. O resultado foi o “puxão” que precisava para começar um caminho vitorioso em 2007, com nove aprovações em vestibulares de universidades de Cuiabá.

Segundo Gilberto, o caminho não para por aí. Ano que vem, ele pretende fazer o vestibular de Medicina com a namorada, uma moça que conheceu no Cuiabá-Vest. O vestibular para Medicina será a quebra de um tabu, explicou ele. “Existe a história de que aluno da rede pública não é capaz de passar em vestibulares de cursos e universidades concorridas. Passei em todos os vestibulares que fiz e agora quero passar em Medicina para provar que os alunos da rede pública não devem ser desmerecidos”, apontou.

Gilberto contou que o vestibular da UFMT também foi um marco, porque a filha caçula foi aprovada para o curso de Administração de Empresas na mesma instituição. Da experiência no cursinho, o aeronauta revelou que só tem lembranças boas. “No começo, senti que havia um preconceito, porque eu era muito mais velho que os outros alunos. Mas com o passar do tempo, esta situação mudou e eu passei a ser uma espécie de referência para eles”, contou.