O Brasil defende na reunião do G-20 um "passo simbólico" para criar uma moeda multilateral que, no futuro, poderá vir a substituir o dólar como moeda de reserva, informa uma fonte do governo. As autoridades, porém, são céticas quanto à possibilidade de, no curto prazo, o dólar deixar de ser a moeda preponderante nas transações internacionais.

A proposta brasileira pressupõe o rearranjo das cotas mantidas pelos países no Fundo Monetário Internacional (FMI), com a ampliação do peso das economias emergentes. Paralelamente, os países-membros fariam uma injeção de capital no FMI da ordem de US$ 700 bilhões. Esses recursos serviriam de lastro para a emissão dos Direitos Especiais de Saque (DES), que ao longo do tempo poderia se estabelecer como nova moeda.

Hoje, o DES é uma cesta de moedas composta pelo dólar, euro, iene e libra. A proposta é que, com a ampliação do peso dos emergentes no FMI, suas moedas sejam agregadas a essa cesta.

Do ponto de vista prático, mesmo com um eventual fortalecimento do DES, o Brasil deverá manter a parte relevante de suas reservas em dólares. "A maior parte da dívida externa é denominada em dólares, por isso as reservas internacionais devem permanecer também em dólares para evitar o descasamento de moedas", diz uma fonte do governo.

O Brasil também manterá sua política de estimular o uso de outras moedas no comércio. Já há um processo em curso para o uso de peso e real nas trocas entre Argentina e Brasil. A intenção é expandir esse acordo da Argentina para os outros parceiros do Mercosul e depois para o resto da América do Sul.

O Brasil compartilha a visão de outros países emergentes, como China e Rússia, de que o uso da moeda emitida por um país, no caso o dólar dos Estados, como moeda internacional de reserva produz desequilíbrios globais.

O ponto central é que os Estados Unidos, ao tomar suas decisões sobre a emissão de moeda, confronta-se com o dilema de atender seus objetivos internos, como estimular a economia e combater a inflação, e atender aos interesses dos países que usam o dólar como moeda de reserva internacional.

Na atual crise financeira, os EUA estão fazendo emissões maciças de dólares para reanimar sua economia. O aumento do volume de dólares em circulação, porém, tende a reduzir o valor da moeda americana, prejudicando os países que a mantêm como ativos de reservas.

O presidente do banco central da China, Zhou Xiaochuan, defendeu, há uma semana, a completa substituição do dólar pelo DES como moeda de reserva internacional. Segundo uma fonte do governo brasileiro, a ideia, em princípio, é interessante. O DES seria emitido de acordo com interesses multilaterais de vários países, sem conflito com os objetivos de uma só economia. Faltou, entretanto, detalhar como isso seria feito. "Não há uma proposta concreta da China", afirma uma fonte do governo.

O Brasil defende uma estratégia gradual. O fortalecimento do FMI e a emissão de US$ 700 bilhões em DES estabeleceriam as bases para a criação de uma moeda multilateral. Seria um primeiro passo, mas, daí a virar uma moeda internacional de reserva, haveria um longo caminho. "Essa emissão de US$ 700 milhões em DES seria praticamente nada comparado com o volume de dólares que circula no mundo", afirma uma fonte do governo. Os títulos emitidos pelo Tesouro dos Estados Unidos, principal ativo nas reservas internacionais, somam de R$ 11 trilhões.

O dólar ascendeu lentamente como moeda internacional de reservas. Levou mais de meio século para suplantar definitivamente a libra britânica.

Quando o euro surgiu, há uma década, chegou-se a acreditar que ele poderia tomar o lugar da moeda americana. Hoje, ele representa uma parcela apenas restrita das aplicações das reservas internacionais dos diversos países. O cenário mais provável é que o euro continuará como uma moeda importante, mas secundária, no cenário internacional.