O pálido Álvares e o bigodudo Bernardo tiveram uma idéia genial para arrecadar um dinheirinho. Com a ajuda de um colega de classe, o José Bonifácio, Bernardo esticou Álvares em uma mesa, tirou os sapatos dele, cruzou seus braços e colocou um lençol branco em cima de seu corpo um tanto esquálido.

- O Álvares morreu, meu Deus, o Álvares morreu.

A traquinagem estudantil rendeu bolsos cheios de moedas, dadas por estudantes emocionados que queriam ajudar no enterro. Claro, o trio teve de devolver tudo quando o defunto levantou correndo para ir ao banheiro.

Mas a história ilustra bem o espírito dos corredores da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no centro - conhecida pelos paulistanos como se fosse um velho amigo pelo apelido de “Arcadas”. Álvares era Manuel Álvares de Azevedo, escritor da segunda geração romântica, dramaturgo e poeta.

Já José Bonifácio era sobrinho do Patriarca da Independência e Bernardo Azevedo escreveu A Escrava Isaura. São apenas três nomes entre centenas de outras figuras que ajudaram a criar a aura das Arcadas, que completou ontem 180 anos de aulas.

“O que a faculdade mais permitia era ter uma formação humanista, além da jurídica”, diz Miguel Reale Júnior, formando de 67 e hoje professor titular de Direito Penal da instituição. Seu pai, maior articulador do novo Código Civil, também se formou nas Arcadas, em 1934.

“A faculdade sempre foi assunto quase que obrigatório nos almoços e jantares de casa. É uma pena que as turmas atuais não tenham tanto interesse pelas raízes históricas da faculdade. Porque história não falta.”

A Faculdade de Direito do Largo de São Francisco foi criada juntamente com a Faculdade de Direito de Olinda, pela lei imperial de 11 de agosto de 1827. Não existiam instituições de ensino superior no País - quem queria estudar tinha de ir para Portugal.

A faculdade paulistana foi a primeira a abrir as portas, em 1º de março de 1828, às 16 horas. Na época, São Paulo tinha pouco mais de 12 mil habitantes. Segundo as historiadoras Ana Luiza Martins e Heloisa Barbuy, a aula inaugural contou com 33 alunos - nove rapazes da própria capital, oito do interior, dez do Rio, quatro de Minas e dois da Bahia.

VIDA CULTURAL

A faculdade das Arcadas - apelido dado pela seqüência de arcos que copiavam as primeiras universidades européias e virou uma espécie de símbolo dos cursos jurídicos do País - destinava-se a formar governantes e administradores públicos.

Era fruto de um sentimento de autonomia da nova nação independente. Por seus bancos desfilaram 11 presidentes, de Prudente de Morais a Jânio Quadros, além de juristas, políticos e figuras ilustres como Rui Barbosa, Celso Lafer, Cláudio Lembo, Ulisses Guimarães, Marcio Thomaz Bastos, Lígia Fagundes Telles, José de Alencar, Monteiro Lobato, Castro Alves.

“Tenho excelentes lembranças das Arcadas, foram anos muito divertidos”, diz o apresentador Luciano Huck. “Mas confesso que não de muito estudo....” De fato, além das aulas, as Arcadas também tiveram um papel fundamental na formação da vida cultural e boêmia da metrópole.

Os estudantes fizeram a cidade despertar de seu estado de vila pacata, estimulando o surgimento de tavernas e cafés. Vieram então os teatros, as livrarias e as ruas ganharam movimento.

“Faculdade tem algo frustrante”, diz o ex-governador Cláudio Lembo. “Ainda mais no meu caso, que cursei no fim da era Getúlio. Era o começo do pessoal de esquerda, então já viu...

Mas a Faculdade do Largo de São Francisco não deixa de ser uma peça importante na formação das pessoas que por ali passaram. As Arcadas nunca deixaram de primar pela liberdade de idéias.”

A palavra liberdade é cara para a história da São Francisco. Encabeçando a campanha pela abolição, conspirando e tramando a proclamação da República, participando da Revolução Constitucionalista de 32, no combate à ditadura Vargas e em passeatas durante o Estado Novo, os estudantes nunca deixaram de participar da vida política brasileira. E de manter a importância das Arcadas para São Paulo.