Chimpanzé, nosso mais próximo parente na cadeia

animal, não fala. Nós falamos. Agora cientistas localizaram uma mutação

em um gene que pode ajudar a explicar essa diferença. Essa mutação

parece ter sido determinante para o desenvolvimento da fala.

Provavelmente não é o único gene responsável por esse processo, mas

pesquisadores acharam um gene que tem aspecto e atividade diferentes em

chimpanzés e humanos, segundo o artigo publicado nesta quarta-feira

pelo jornal Nature.

Testes de

laboratório demonstraram que a versão humana tem relação com outros cem

genes, diferente da versão do chimpanzé. Este gene - chamado FOXP2 -

sofreu mutação durante o desenvolvimento humano, promovendo a

habilidade da fala.

"Esta descoberta apresenta a maior

diferença entre o chimpanzé e o homem", disse Daniel Geschwind, autor

do estudo e professor de neurologia, psiquiatria e genética humana da

Universidade da Califórnia. "Você faz a mutação deste gene em humanos e

obtém um transtorno na capacidade de fala e comunicação", conclui o

especialista. "Isto mostra o que pode estar acontecendo no seu cérebro."

A francesa Vargha-Khadem, chefe de desenvolvimento de neurociência

cognitiva da Universidade de Londres, que não fez parte da pesquisa,

disse que o estudo "segue uma linha que nós sempre suspeitamos."

Vargha-Khadem estudou pessoas que possuíam mutações genéticas que

afetavam a fala. Pessoas que apresentavam essas mutações tinham

características físicas distintas na parte inferior da mandíbula, na

língua e no céu da boca, da mesma forma que os chimpanzés apresentavam.

Essas características físicas são importantes porque "você não pode

dançar se você não tiver pernas apropriadas para dançar", disse a

pesquisadora francesa.

O estudo deste gene e de outros podem

ajudar a desenvolver tratamentos genéticos para pessoas com alguma

dificuldade de desenvolvimento, como autismo, disse Geschwind.

Outra parte dos especialistas alertam para a euforia da descoberta.

"É muito cedo e inconclusivo medir o quanto isso significa para a

evolução da fala", disse Marc Hauser, professor de evolução biológica

humana da Universidade de Harvard. "Eu ficaria bastante cético em

relação a qualquer projeção de tratamentos por resultados desta

descoberta", disse Hauser.

E a questão principal não é como, mas "porque nós falamos", disse

Derek Bickerton, professor de linguística da Universidade do Havaí. "Só

porque os humanos desenvolveram a habilidade de falar, não significa

que isso vai acontecer automaticamente", completou Bickerton. "Muitas

outras espécies sobrevivem por centenas de anos sem essa habilidade.

Nós apenas temos uma características que outras espécies não têm."