Em dez anos, aumentou a desigualdade entre brancos e negros quando se

compara taxas de freqüência e de conclusão do ensino superior dos dois

grupos, revela o IBGE. Em 1997, 9,6% dos autodeclarados brancos e 2,2%

dos pretos e pardos, de 25 anos ou mais de idade, tinham curso superior

completo no País. No ano passado, as proporções eram de 13,4% e 4%,

respectivamente. Ou seja: apesar de a participação dos pretos e pardos

ter quase dobrado, o hiato em relação aos brancos aumentou de 7,4 para

9,4 pontos porcentuais, no período.

"Os dados refletem a insuficiência dos esforços recentes. Significa

que 96% dos negros (com 25 anos ou mais) ignoram o que é universidade.

Ainda há muito a ser feito", disse o professor Marcelo Paixão, da

Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 2007, a taxa de

freqüência para estudantes de 18 a 25 anos que se declararam brancos

(19,4%) era quase o triplo da registrada entre pretos e pardos (6,8%).

No ano passado, 57,9% dos estudantes brancos de 18 a 24 anos estavam no

nível superior - para pretos e pardos, o porcentual foi de 25,4%.

Paixão

avalia que o resultado da Síntese de Indicadores Sociais "é um reforço

para aqueles que falaram sim às cotas". Mas ressalva que a política

pública no setor "foi mínima". "Ficou mais no plano das intenções." A

divulgação ocorre no ano em que se completam 120 anos da Lei Áurea, e

uma semana após o IBGE ter mostrado que a população de pretos e pardos

(49,7% do total) superou a de brancos (49,4%) no País em 2007.

Para

José Luís Petruccelli, pesquisador do IBGE, o debate sobre cotas nos

País é "político-ideológico". "Desde a formação das universidades no

País, nunca se fez nenhum tipo de política pública para atender aos

grupos subalternizados", disse. "Até hoje se questiona o pouco que está

se tentando fazer, e os resultados ainda não são nem visíveis." Segundo

ele, as cotas criadas nos últimos anos, por iniciativa de cerca de 60

universidades públicas, afetam uma parcela muito baixa do total de

estudantes. "Menos de 30% dos universitários estão em instituições

públicas. Também há o ProUni, mas afeta cerca de 100 mil estudantes. Em

5,5 milhões, isso é muito pouco", disse Petruccelli.

O

estudo mostra que os pretos e pardos de 18 a 25 anos não conseguiram

alcançar, no ano passado, as taxas de freqüência que os brancos

apresentavam em 1997. A diferença a favor dos brancos, que continuaram

a apresentar níveis mais elevados em todas as idades, aumentou no

período analisado: em 1997, era de 9,6 pontos porcentuais aos 21 anos,

e chegou a 15,8 pontos em 2007. Ou seja: em 1997, a taxa de jovens de

21 anos freqüentando o ensino superior era de 2,6% para pretos e

pardos, e de 12,2% para brancos. Dez anos depois, chegou a 8,4% para

pretos e pardos, e a 24,2% para os brancos.

Aos 18

anos, a diferença aumentou de 4,9 pontos porcentuais em 1997 para 10,1

pontos no período. "Após uma década, a composição racial das pessoas

que completaram o nível superior permanece inalterada, ou até mais

inadequada, em termos de representação dos pretos e pardos, continuando

a se constituir um obstáculo para a ascensão social destes", observa o

IBGE.

Dos 14 milhões de analfabetos brasileiros, mais

da metade (9 milhões) eram pretos ou pardos em 2007. Em termos

relativos, a taxa de analfabetismo da população branca foi de 6,1% para

as pessoas com 15 anos ou mais de idade, ante 14% para pretos e pardos,

mais que o dobro. A média de anos de estudo da população de 15 anos ou

mais apresentou vantagem de quase 2 anos a mais para brancos (8,1 anos

de estudo) em relação a pretos e pardos, com 6,3 anos.

O

IBGE comparou os rendimentos por cor dentro dos grupos com mesmo nível

de escolaridade. O rendimento-hora dos brancos era até 40% mais elevado

que o de pretos e pardos, no grupo com 12 ou mais anos de estudo.

Também foi comparada a participação relativa dos dois grupos na

apropriação do rendimento das famílias. A distribuição entre os 10%

mais pobres e entre o 1% mais rico mostra que, em 2007, os brancos eram

25,5% do total entre os mais pobres, e 86,3% dos mais ricos. Já os

pretos e pardos representavam 73,9% entre os mais pobres, e apenas 12%

entre os mais ricos.

Para o IBGE, os valores mostram

que as desigualdades na apropriação da renda do País "têm se mantido ou

até piorado um pouco, se comparadas com anos anteriores". Fundador da

rede de pré-vestibulares Educafro, o frei David Santos disse que o

estudo do IBGE "prova" que só é possível construir um Brasil com menos

desigualdade de oportunidades se houver mais políticas de ação

afirmativa "em função da realidade de cada etnia".

"Estou

escandalizado com o número de negros que entram na universidade e não

podem se manter porque não têm dinheiro para a passagem de ônibus, não

têm emprego garantido e por isso vivem em constante instabilidade",

disse. Para David, o governo federal deveria ser "mais firme corajoso"

na definição de políticas "diferenciadas de inclusão", como uma bolsa

de ajuda financeira para os que entram em universidades públicas por

meio de cotas e aqueles que ingressam em instituições privadas pelo

ProUni.