Em 08 de novembro de 2007, as vésperas da realização da Nona

Rodada de Licitação para Exploração, Desenvolvimento e Produção de

Petróleo e Gás Natural a Petrobrás anunciou as primeiras avaliações

feitas sobre as reservas da sua maior província petrolífera,

particularmente da área denominada de Tupi, localizada na bacia de

Santos. Desde então não cessam de surgir surpresas, suposições, novas

descobertas e prognósticos variados.

 

A polêmica é plenamente justificável. O Brasil anuncia aos quatro

ventos descobertas gigantescas de novos campos no mesmo instante em que

o mundo desenvolvido se depara com crise energética, em função da

incongruência entre seu consumo e sua produção do petróleo, cuja

resultante é a patente escassez desse óleo sem haver no horizonte

próximo sucedâneo à altura. A flagrante repercussão não é sem motivo.

Se os primeiros prognósticos já eram bastante importantes, os atuais

são muito pomposos.

 

As novas e alvissareiras descobertas se encontram abaixo de uma

espessa camada de sal, daí a denominação pré-sal, a aproximadamente

6.000 metros de profundidade. O bloco está distribuído entre o litoral

dos estados do Espírito Santo até Santa Catarina, em área de

aproximadamente 800 quilômetros, abrangendo as bacias sedimentares do

Espírito Santo, de Campos, bem como a bacia de Santos. As primeiras

análises apontam para a existência de óleo leve de boa densidade 30º

API (American Petroleum Institute).

 

Inicialmente, previam-se reservas em torno de 5 bilhões de boe,

passando-se para 8 bilhões, permitindo-se, ora, prognósticos que já

posicionava o Brasil como exportador de petróleo. Em seguida se falou

em 33 bilhões. Hoje as previsões vão de 100 a 338 bilhões de boe. Para

se poder compreender melhor o que representam esses números é

necessário saber que atualmente as reservas provadas do Brasil são da

ordem de 14 bilhões de boe, as da Arábia Saudita 264 bilhões de boe.

 

O tamanho da riqueza, como não podia ser diferente, está fazendo a

temperatura das discussões e decisões políticas crescerem rapidamente.

Em julho foi criada uma comissão de sete pessoas (4 ministros e três

presidentes de estatais) para, em 60 dias, apresentar a Lula propostas

de regras para a exploração do pré-sal. Mais recentemente,

pronunciamentos do Presidente da República e do Ministro das Minas e

Energia (este último coordena a comissão afim), apontaram na direção da

criação de uma nova empresa puramente estatal, que teria o fim último

de gerir respectiva riqueza; ou seja, a Petrobrás ficaria de fora, pois

como falou o presidente Lula, o petróleo do pré-sal não pode ser

explorado por "meia dúzia de empresas".

 

Essa proposta de retirar das mãos da Petrobrás a exploração dessa

imensa riqueza suscita imperativamente uma vigorosa discussão no

conjunto da população brasileira. Apresentam-se algumas questões a

guisa de melhor problematizar o tema:

 

Em primeiro plano é importante frisar que, a despeito de todas as

investidas contrárias, a Petrobras soube até hoje cumprir seu papel,

sendo a adquirida auto-suficiência e a alta tecnologia de prospecção de

petróleo prova inconteste.

 

Segundo, como justificar regras, as quais excluem a empresa que

pesquisa e utiliza seu know how na descoberta fique de fora da

exploração? O prêmio por seu esforço e sua competência seria seu

esvaziamento? De tal sorte, na prática é isso que vai ocorrer, pois o

que são 14 bilhões próximos dos 100, 200 ou 300 bilhões de boe.

 

Terceiro, a tecnologia para exploração em águas profundas é

patrimônio da Petrobras e dos seus trabalhadores de forma técnica e

tácita, logo surge mais uma questão: em que local essa nova empresa vai

buscar a tecnologia, será que a Petrobras além da descoberta, dos seus

dados, também terá que disponibilizar seus trabalhadores, perdendo

memória técnica? Se isso ocorrer além do esvaziamento financeiro a

Petrobras também sofrerá o esvaziamento técnico.

 

Quarto, sob a batuta da Petrobrás, por sua história de luta, seu

enraizamento na sociedade, o povo brasileiro tem garantia de que a

riqueza descoberta estará segura; quanto a essa nova empresa só restam

interrogações? A proposta é que será puramente estatal; mas até quando?

O governo Lula passa e depois?

 

Quinto, outra salvaguarda fundamental da Petrobrás e, portanto,

das riquezas que a mesma administra são seus trabalhadores. A qualidade

técnica e o compromisso dos mesmos são fatos insofismáveis. Sua

capacidade de luta e questionamento ao status quo já foi posto à prova

em diversos momentos da história política brasileira, neste tocante,

mais recentemente, é digna de nota a greve dos petroleiros de 1995,

sabido fator de resistência à política privatista do governo FHC, e

nessa nova empresa como será?

 

É importante salientar que reservas minerais ou vegetais, por mais

riqueza que elas representem, não têm sido sinônimo de fartura para

seus países e seus povos, muitas vezes significam mesmo o oposto. O que

dizer dos diamantes da África do Sul, das minas de cobre do Potossi na

Bolívia, do petróleo na Nigéria e mesmo do Pau-Brasil, Cana de Açúcar,

Borracha, Cacau, Café, Ferro, Manganês etc. do Brasil?

 

O Brasil tem pressa, sua desigualdade social e seu povo faminto

não podem esperar, sabe-se disso, porém não foi e não é por falta de

riqueza que falta educação, saúde, segurança, e qualidade de vida para

grande maioria do nosso povo. A dimensão das descobertas do pré-sal, a

responsabilidade ética com as futuras gerações exigem decisões abertas,

para além dos palácios e comissões incorporando a voz do conjunto da

sociedade. É imprescindível a criação de fóruns de discussão,

incorporando a presença e os pontos de vista de organizações e

entidades a exemplo da: OAB, ABI, UNE, CNBB, DIEESE, CONFEA, MST,

CONTAG, Centrais Sindicais, Federações de Trabalhadores, Centrais do

Movimento Popular.