Se você não pode ou não tem como cursar uma faculdade e deseja uma formação mais completa do que a oferecida pelos cursos técnicos, uma boa opção são os chamados cursos seqüenciais, criados pelo MEC (Ministério da Educação) em 1998, com duração que varia de seis meses a dois anos.

Esses cursos são considerados como uma modalidade do ensino superior, em que o aluno, após ter concluído o ensino médio, poderá ampliar os seus conhecimentos ou sua qualificação profissional freqüentando o ensino superior, sem necessariamente ingressar em um curso de graduação.

O que se busca é uma formação específica em um dado campo do saber, e não em uma área do conhecimento. Os cursos seqüenciais podem ser feitos antes, ao mesmo tempo ou depois de um curso de graduação, e permitem, mas não exigem, que seus alunos sejam portadores de diploma de nível superior, ou seja, eles não se confundem com os cursos e programas de graduação, pós-graduação ou extensão. Vale lembrar que esses cursos não devem ser entendidos como uma abreviação da graduação, mas como uma alternativa de formação superior para quem não deseja ou não precisa de um curso de graduação plena.

Diante disso não se admite, por exemplo, a oferta de cursos seqüenciais sob a denominação de “curso seqüencial de Jornalismo”, pois este é um curso de graduação plena tradicional, que conduz à diplomação em uma profissão regulamentada por lei. O que pode ser oferecido é um curso seqüencial em algum campo do saber dentro desta área do conhecimento. Segundo as universidades que oferecem cursos seqüenciais, grande parte dos alunos que freqüentam as salas de aula são profissionais formados que procuram por uma especialização.

Existem dois tipos de cursos seqüenciais:

1) Formação específica:

- dão direito a diploma;

- possuem destinação coletiva, ou seja, o conjunto de disciplinas é proposto

pela faculdade;

- têm como pré-requisito o candidato possuir diploma de nível médio

2) Complementação de estudos:

- dão direito a certificado;

- possuem destinação coletiva ou individual;

- têm como pré-requisito candidato possuir diploma de nível médio.

No primeiro caso, o conjunto de disciplinas é proposto pela faculdade, sendo ele destinado a alunos egressos ou matriculados em cursos de graduação. Já nos cursos com destinação individual, o aluno escolhe as disciplinas que quer cursar, submetendo-as à aprovação pela coordenação do curso.

Cuidados

Se você tem a intenção de fazer um curso seqüencial, fique atento a alguns cuidados que devem ser tomados no momento de escolher um deles. “Por ser uma modalidade nova de curso superior, ainda existe certo preconceito em relação a eles junto à área acadêmica”, diz Herbert Gomes Martins, professor responsável pelos cursos seqüenciais da Universidade Castelo Branco, do Rio de Janeiro.

Como esses cursos são divididos por “campo do saber”, isto é, uma nova área ou um conjunto de disciplinas da graduação, e não por “área do conhecimento”, como é o caso do bacharelado, corre-se o risco de alguma faculdade vender um curso apresentando a mesma proposta de um curso de graduação. O MEC já ameaçou algumas faculdades de não reconhecer o diploma conferido por elas.

Mesmo que o curso tenha sido previamente autorizado pelo MEC, o risco de não ter o diploma reconhecido é grande, no caso dos cursos de Formação Específica. Isso ocorre porque a autorização do Ministério não é suficiente para a obtenção do diploma. No decorrer do curso, a instituição é avaliada pelo MEC, e caso ela não cumpra o projeto inicial aprovado pelo governo, você corre o risco de receber um diploma não reconhecido, como ocorre com alguns cursos de graduação.

Para evitar aborrecimentos, antes de escolher o curso, prefira as instituições que oferecem cursos de graduação bem avaliados no Provão. Se você já estiver estudando, acompanhe se a faculdade está cumprindo as exigências impostas pelo governo.

“Analise dados como autorização e reconhecimento dados pelo MEC, número de vagas, grade curricular, corpo docente, tempo de duração do curso e número de turmas”, alerta Maurício Chermann, presidente da Associação Nacional das Universidades Particulares (ANUP) e reitor da Universidade Braz Cubas, em Mogi das Cruzes.

Vale lembrar que os cursos seqüenciais também não dão direito ao aluno cursar pós-graduação Stricto Sensu (Mestrado e Doutorado), ou seja, não são indicados para quem tem pretensão de seguir uma carreira acadêmica ou com base científica.

Vantagens

Os cursos seqüenciais contam com uma grande vantagem: são mais baratos que os cursos de graduação e oferecem um currículo organizado em módulos, o que dá direito a certificados de conclusão parciais. Cada instituição adota um tipo de processo seletivo, mas, na maioria dos casos, não há como escapar do vestibular.

“O ponto positivo dos cursos seqüenciais é a oportunidade que oferecem a uma pessoa que, em qualquer tempo, queira ter acesso ao diploma de graduação ou conquistar um outro”, diz Chermann. Para Martins, da Universidade Castelo Branco, os cursos seqüenciais também funcionam como um incentivo à educação continuada, pois o aluno, de posse de um diploma, em um curto espaço de tempo adquire, pelo menos em tese, estímulo e estabilidade financeira para prosseguir seus estudos.

Em um país que ainda não chegou a 15% da sua população jovem em cursos de nível superior, a possibilidade de contar com um diploma enche os olhos. “Oferecer ao jovem a perspectiva de ter um grau de formação superior em um período de dois anos é um grande avanço na educação do país”, acredita o reitor da Universidade Nove de Julho - Uninove, Eduardo Storópoli.

Para o especialista em educação Cláudio Moura e Castro, os cursos seqüenciais são uma versão bastante flexível dos cursos curtos que estavam demorando a aparecer no Brasil. “Nos Estados Unidos, mais da metade dos graduados de ensino superior fazem cursos de dois anos ou menos. São os chamados community colleges, que já existem há mais de 30 anos. Sua flexibilidade é a maior vantagem”, avalia Castro. Em Universidades como Anhembi-Morumbi, Uninove, Universidade de Guarulhos e PUC, essa já é uma realidade.

Ao optar por um curso de formação específica, no final de dois anos o aluno recebe um diploma. Ele pode ou não dar continuidade à sua graduação por mais dois ou três anos e receber mais um diploma ao concluí-la. O inverso também pode ser feito, ou seja, se o aluno ingressar em um curso de graduação, ao final de dois anos receberá o diploma de um curso de formação específica, o que é útil nos casos em que o aluno se arrepende do curso escolhido.

O curso seqüencial supre a carência do mercado de trabalho?

“Os cursos seqüenciais de formação específica possibilitam o aproveitamento de créditos, isto é, ao concluir um desses cursos, o aluno recebe diploma de nível superior e ainda tem a possibilidade de completar os estudos em cursos de graduação, desde que sejam em áreas afins”, explica Sebastião Dornellas Luque, diretor do Instituto de Formação da Uninove.

Os cursos seqüenciais foram criados para atender a necessidades específicas de mercado, uma vez que ainda falta muita mão-de-obra especializada no Brasil. Mas até que ponto são válidos? A vivência acadêmica não faz parte da formação completa do indivíduo, preparando-o para a concorrência acirrada?

Para Herbert Gomes Martins, professor responsável pelos cursos seqüenciais da Universidade Castelo Branco, a formação humanística oferecida em um curso de graduação tradicional é restrita, se compararmos os cursos seqüenciais com os tradicionais que contam com uma carga horária mais robusta em disciplinas como Sociologia, Filosofia e Antropologia. "Essas disciplinas também estão presentes nos cursos seqüenciais, só que de forma pragmática”, explica Martins.

“Tudo na vida é uma opção ou custo de oportunidade, como dizem os economistas. Fazer um curso seqüencial significa dois anos a menos de vivência universitária, mas também dois anos a menos para pagar a faculdade. São dois anos antes no mercado de trabalho. A julgar pelos Estados Unidos, mais da metade dos alunos de nível superior prefere pagar esse preço. Seremos nós mais ricos ou mais puristas?”, questiona Cláudio Moura e Castro, especialista em educação.

Para Eduardo Storópoli, reitor da Uninove, uma das grandes vantagens dos cursos seqüenciais é exatamente o fato de eles acompanharem as mudanças do mercado de trabalho. “Eles possibilitam a formação de profissionais cada vez mais competentes e voltados para o momento atual”, diz Storópoli.

Mas ele acredita também na importância do convívio universitário. “Sem dúvida, a escola é um mecanismo de formação social. Mas o aluno que opta por um curso de formação seqüencial não precisa interromper sua formação ao final do segundo ano”, avalia o reitor.

E para quem já se graduou? Vale a pena fazer um curso seqüencial? Sim, diz ele, por conta da dinâmica do mercado. “Esses cursos são uma forma de atualização constante”, comenta Storópoli. Para Paulo Vadas, coordenador dos cursos seqüenciais da Anhembi-Morumbi, esses cursos têm por princípio a educação continuada, ou seja, o aluno dá prosseguimento aos seus estudos sempre que sentir necessidade.

“Os alunos dos cursos superiores de formação específica da Anhembi-Morumbi têm idade média de 30 anos. Noventa e oito por cento deles são profissionais com mais de cinco anos de experiência. Sua presença na universidade tem a finalidade da reciclagem”, conclui.